Educação & Cuidado

Quinze a vinte minutos

A última frase do meu relatório de estágio dois é esta:

Observei que a retenção de atuação das turmas é de quinze a vinte minutos por aula. Neste sentido trabalharei dentro desta perspectiva.

Vinte e nove palavras, e elas registram a única coisa que eu de fato aprendi naquele ano.

Meses antes, no primeiro estágio, eu havia escrito sobre a mesma turma que os alunos não conseguiam ficar sentados dez minutos e que aquilo era uma característica comportamental que deveria ser trabalhada.

Trabalhada em quem, eu não disse. Mas a frase deixava claro: o problema estava neles, e a solução era corrigi-los.

E aí, no relatório seguinte, sem nenhum anúncio, a mesma observação aparece transformada.

Já não é característica a ser corrigida. É retenção, medida em minutos, com faixa declarada, e um verbo no futuro: trabalharei dentro desta perspectiva.

Deixei de descrever um defeito e passei a declarar um parâmetro.

É a diferença entre duas profissões.

Quem julga descreve o desvio em relação ao que deveria ser. Quem projeta mede o que existe e desenha para caber ali. O primeiro escreve relatórios sobre alunos dispersos. O segundo escreve planos de aula de dezoito minutos.

Não estou dizendo que a atenção fragmentada seja boa, nem que aceitá-la resolva alguma coisa de fundo. Não resolve. Aquelas crianças cresceram dentro de sistemas construídos por gente muito bem paga para tornar a permanência impossível, e reconhecer isso não conserta nada.

Mas há uma diferença entre lamentar a realidade e projetar dentro dela.

Um professor que planeja aula de cinquenta minutos para uma turma que sustenta quinze vai passar o ano inteiro brigando com a própria turma e perdendo. Um professor que planeja três blocos de quinze vai dar aula.

Levei um semestre inteiro, uma dúzia de observações e um projeto de cinquenta aulas que nunca aconteceu para chegar a essa conclusão de vinte e nove palavras.

E a escrevi no último parágrafo do relatório, como quem anota um detalhe operacional antes de fechar o documento.

Era o único parágrafo que importava.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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