Educação & Cuidado

Brincar dando aula

A peça do dia 13 de dezembro não aconteceu.

As aulas aconteceram.

Depois de todos os entraves, das assinaturas que não vinham, das quarenta e cinco horas exigidas e das dez oferecidas, do trimestre que não batia com o semestre e da negociação para entrar dentro da unidade de dança, eu finalmente entrei numa sala de aula como professor de teatro.

E foi assim que registrei, no relatório final:

Foi possível brincar dando aula e dar aula brincando.

É a melhor frase de tudo o que escrevi naquele ano. E é a única que não descreve um problema.

Trabalhei com os jogos teatrais de Viola Spolin, adaptados. E, pela primeira vez em meses de observação, eu não estava tomando nota no fundo da sala. Estava no meio dela, conduzindo.

O que funcionou foi a espontaneidade. Escrevi que ela gerou uma experiência de protagonismo por parte dos alunos, e é verdade. Jogo teatral faz isso: tira o adolescente da cadeira e o coloca numa situação em que ele precisa decidir alguma coisa com o corpo, na frente dos outros, sem tempo de calcular.

Aqueles mesmos alunos que não sustentavam quinze minutos de atenção numa aula expositiva jogaram.

E o que não funcionou também está registrado, e eu escrevi sem me poupar.

As propostas não aconteceram dentro dos limites do planejamento. O curso foi mudado pela espontaneidade em muitos casos, e algumas vezes por falta de senso de condução da minha parte.

Falta de senso de condução. Foi assim que escrevi, sobre mim mesmo, num documento que vale nota.

A fuga da atenção da sala desequilibrou a proposta mais de uma vez, e eu consegui contornar, mas contornar não é conduzir. É recuperar.

E anotei a conclusão que só se aprende fazendo: praticar os jogos, para quem está conduzindo, não é nada fácil. Apesar de ensinar brincando, a condução requer preparo e aprendizado anterior.

Essa é a descoberta que separa quem viu de quem fez.

Quem assiste a uma aula de jogos teatrais bem conduzida acha que é fácil, porque a marca de uma boa condução é justamente parecer que ninguém está conduzindo. As crianças brincam, o professor sorri, tudo flui.

O que não se vê é o trabalho de manter uma sala inteira dentro de um jogo que ela pode abandonar a qualquer segundo, sem que ela perceba que está sendo mantida.

Eu não sabia fazer isso. Descobri que não sabia no meio da primeira aula.

E foi ali, com trinta adolescentes de um sétimo ano em São Pedro, que eu entendi que dar aula de teatro é um ofício, e não uma extensão do meu jeito de falar em público.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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