Velocidades diferentes
Numa disciplina de laboratório de poéticas, construí duas performances. Uma se chamava Manifesto. A outra, Inventário.
E, no memorial que escrevi depois, registrei uma descoberta que não era sobre teatro.
Escrevi que o simbolismo do Manifesto estava, talvez, na falta de conexão imediata entre o falado e o movimento. Que nem sempre a fala consegue, ou pretende, se mover na mesma velocidade ou na mesma direção da ação.
E completei, no parágrafo seguinte: o que é dito é uma mensagem, mas o que não é dito também é uma mensagem. O que é movimentado é uma mensagem, e também o que não é.
Escrevi isso como observação técnica sobre construção de cena.
Não era.
Eu tinha trinta e sete anos e estava descobrindo, com o corpo, dentro de um exercício acadêmico, a coisa que a minha vida inteira vinha tentando me dizer.
Passei décadas sendo o homem cuja fala e cujo corpo andavam em velocidades diferentes. O pensamento atravessava a sala e o corpo não saía do lugar. A frase estava pronta e o maxilar travava. A mão ia até o telefone e voltava. Escrevi, sobre mim mesmo, que passei décadas calado não por falta de voz, mas por excesso de temor, e que a ansiedade se alojava na garganta porque a palavra não saía.
E aí, num palco improvisado de disciplina a distância, aquilo virou recurso.
Porque em cena a dessincronia entre palavra e gesto não é defeito. É construção de sentido. O ator que diz uma coisa enquanto o corpo faz outra está produzindo exatamente o efeito que o teatro sabe usar desde sempre: o espectador percebe que há duas mensagens e que elas não coincidem, e é nesse vão que o significado acontece.
O que na vida é sintoma, no palco é técnica.
E há uma palavra que eu usei nesse mesmo memorial e que já tinha usado, anos depois, num texto sobre escrever: entrelinhas.
Escrevi que o texto teatral é mais do que a fala, que é o conjunto das possibilidades interpretativas, o que está nas entrelinhas da dramaturgia. E escrevi, em outro lugar, que as entrelinhas são os versos amordaçados, os sentimentos represados.
A mesma palavra, duas vezes, para dizer que o silêncio é conteúdo.
Toda a minha vida adulta foi organizada em torno do que não consegui dizer. E o teatro me informou, num exercício de dramaturgia, que aquilo que não é dito não é ausência de mensagem.
É outra mensagem.
Levei meses para reler o memorial e perceber o que estava escrito ali.
E ainda não sei o que fazer com a informação.


