O nome que falta
Num trabalho de licenciatura, discorri sobre interseccionalidade ao longo de várias páginas, apoiado numa única autora brasileira que resumia o conceito.
Escrevi que a interseccionalidade é uma ferramenta criada para identificar o racismo.
Está pela metade, e a metade que falta é justamente a que dá nome à coisa.
O termo foi cunhado em 1989 por Kimberlé Crenshaw, jurista negra estadunidense, num artigo sobre um caso concreto. Trabalhadoras negras processaram uma montadora por discriminação e perderam, porque o tribunal analisou o caso em dois eixos separados. Para discriminação racial, olhou os homens negros da empresa, que estavam empregados. Para discriminação de gênero, olhou as mulheres brancas, que também estavam. E concluiu que não havia discriminação.
As mulheres negras não estavam em nenhuma das duas caixas. Caíam no vão entre elas.
Interseccionalidade não foi criada para identificar o racismo. Foi criada porque o antirracismo sozinho e o feminismo sozinho falharam com as mesmas pessoas ao mesmo tempo, e porque nenhum sistema que analisa um eixo de cada vez consegue enxergar quem está no cruzamento.
E é por isso que a minha outra frase daquele trabalho também está errada.
Escrevi, seguindo a autora que eu citava, que gênero e raça são os maiores fatores de discriminação no contexto escolar.
Ordenar fatores é exatamente o que a interseccionalidade existe para impedir. O ponto do conceito não é qual eixo pesa mais. É que os eixos não se somam nem se ordenam: eles produzem, no encontro, uma situação que nenhum deles descreve sozinho.
E há um dado pessoal que eu tinha e não usei.
No mesmo período eu escrevi outro texto, sobre o que aconteceu comigo ao entrar numa instituição de ensino em 2008. Registrei ali três marcadores, e não dois: a minha cor, o meu CEP e a minha fé.
Cor, classe e religião, agindo juntas, na mesma sala, sobre a mesma pessoa.
Nenhuma das três explicava aquilo isoladamente. Um homem negro de classe média não teria ouvido o mesmo. Um homem pobre e branco também não. Um homem negro e pobre que não fosse evangélico teria enfrentado dois terços daquilo.
Era o cruzamento, e o cruzamento tem nome desde 1989.
Hoje coordeno, no meu campus, o núcleo de estudos afro-brasileiros e indígenas.
E aprendi que usar um conceito sem nomear quem o criou é, num caso como este, especialmente ruim. Porque a interseccionalidade nasceu justamente para descrever o que acontece com pessoas que caem no vão entre as categorias.
Deixar a autora fora do texto é fazer com o nome dela o que o tribunal fez com as clientes dela.


