Educação & Cuidado

A oficina que enlata

Assisti a uma entrevista com Mestre Calú, mamulengueiro, e escrevi uma resenha. No meio dela, sem perceber que estava fazendo uma objeção séria, escrevi isto:

A oficina é o lugar apropriado para transmitir essa responsabilidade. Porém, a oficina toma o lugar da naturalidade transmissiva. É um tempo programado especialmente para aquilo, entrando, querendo ou não, numa matriz curricular. E desse modo a arte torna-se um pouco enlatada.

Enlatada. Foi a palavra que me veio, e ela está certa.

O mamulengo não se aprendia em oficina. Aprendia-se olhando, no engenho, depois de um dia inteiro de trabalho braçal, com um mestre que brincava a noite toda e um menino ao lado que ia entendendo sem que ninguém explicasse. A transmissão era oral e prática, e era indistinguível da própria vida.

O ritual de entrada nesse universo, como escrevi na época, não passa pelas cátedras.

E agora passa.

Porque a alternativa é o desaparecimento. Não há mais engenho, não há mais noite inteira, não há mais o menino ao lado. Sobrou a oficina: uma sala, um período definido, uma quantidade de encontros, um objetivo de aprendizagem, e alguém que ensina o que aprendeu de outro jeito.

E é aqui que a coisa fica difícil, porque as duas afirmações são verdadeiras ao mesmo tempo.

Sem oficina, o mamulengo morre com os mestres que ainda estão vivos.

Com oficina, o que sobrevive já não é exatamente o mamulengo. É o mamulengo traduzido para a gramática da escola, com horário, avaliação e certificado de participação.

Preservar altera. Não existe uma forma neutra de guardar uma coisa viva.

Mestre Calú diz, na entrevista, que quando partir é preciso ter um filho para tomar conta da arte.

Essa frase me atravessa por motivo particular. Sou filho de pastor. Comecei a pregar ainda menino, e o que eu sei do ofício não veio de seminário: veio de ver meu pai fazer, domingo após domingo, em barracão de igreja pequena, sem ninguém me explicar nada.

Depois eu estudei teologia, e a teologia é uma oficina.

Ela me deu instrumento, história, método e vocabulário. E também me deu, sem que eu pedisse, uma distância. Depois que se aprende a nomear o que se faz, não se faz mais exatamente do mesmo jeito.

Ganhei alguma coisa e perdi alguma coisa, e não sei dizer o saldo.

Talvez o único caminho honesto seja este: fazer a oficina sabendo o que ela custa. Ensinar o mamulengo em sala e dizer aos alunos, com todas as letras, que aquilo ali é uma redução, e que a coisa verdadeira durava a noite inteira e não tinha nota.

Uma tradição que se sabe traduzida ainda pode voltar para casa um dia.

Uma tradição que se acha original já esqueceu que veio de outro lugar.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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