Parte da minha família
Um questionário de disciplina perguntou se eu tinha alguma lembrança de participação em festa, dança ou brincadeira que pudesse ser entendida como cultura popular.
Respondi que sim: os festejos juninos.
E escrevi assim:
Mesmo quando era pequeno, eu e parte de minha família participávamos do arraial do bairro onde morava.
Parte da minha família.
Levei quatro anos para reparar nessas três palavras, e elas dizem mais do que o resto da resposta inteira.
Porque a pergunta seguinte do questionário quis saber se aquelas manifestações estavam ligadas ao calendário cívico, religioso ou festivo da cidade.
E eu respondi que não. Duas vezes, no mesmo parágrafo, com a gramática tropeçando nas duas. Escrevi que não fazia parte do calendário religioso, e depois repeti que aquele evento em que participei não fazia parte do calendário religioso.
Ora.
Festa junina é o ciclo dos santos de junho. Santo Antônio no dia treze, São João no dia vinte e quatro, São Pedro no dia vinte e nove. A fogueira, a bandeirinha, a quadrilha, o arraial: tudo aquilo nasceu dentro do calendário devocional católico e continua lá, mesmo quando ninguém mais lembra o motivo.
É religioso desde a origem, e eu neguei duas vezes.
Sou filho de pastor. Cresci na Assembleia de Deus, num tempo em que essas fronteiras eram muito mais rígidas do que hoje.
E ali estava um menino descendo para o arraial do bairro, com parte da família, comendo o que se come em junho, ouvindo a música e gostando muito da música, como escrevi, e vendo a quadrilha, e no fim todo mundo junto cantando e dançando.
Parte da família ia. A outra parte, não.
Eu não disse, no questionário, quem ficava em casa nem por quê. E provavelmente não precisava dizer: era simplesmente assim, e crianças não perguntam o motivo de arranjos que sempre existiram.
Mas o adulto que respondeu àquele formulário, aos trinta e sete anos, com licenciatura em Teatro em curso, ainda achou necessário garantir, duas vezes, que aquilo não era religioso.
Não sei se estava protegendo a memória ou protegendo a si mesmo.
Sei que aquela foi a resposta que eu dei quando me pediram a minha lembrança mais forte de cultura popular. Entre tudo o que a minha infância teve, e ela teve muito, o que me veio foi a festa à qual eu ia pela metade.
Talvez seja por isso que ficou.
O que a gente frequenta inteiro vira rotina. O que a gente frequenta pela metade vira lembrança.


