Filosofia & Teologia

Crenças limitantes

Existe uma expressão que atravessa toda a literatura de autoajuda e que eu gostaria de examinar com calma: crenças limitantes.

A ideia é conhecida. Aquilo que impede uma pessoa de chegar onde quer não está fora dela, está na cabeça dela. São pensamentos negativos, ideias herdadas, convicções sobre a própria incapacidade. Identifique essas crenças, substitua por outras, positivas, e o caminho se abre.

Parte disso é verdadeira, e eu sou testemunha. Passei décadas com vergonha do próprio rosto, da voz, do corpo, do sobrenome e da casa. Nada daquilo era descrição da realidade. Era uma sentença que eu repetia sozinho, e ela me custou coisas que não voltam.

Nesse ponto, o conselho acerta.

O problema é quando ele vira explicação única.

Em 2022 passei meses observando uma escola pública de tempo integral, num bairro de periferia, para um estágio de licenciatura em Teatro. Anotei tudo o que vi.

Anotei que a coordenadora precisou abrir quatro portas para encontrar uma sala vazia onde conversar comigo por vinte minutos. As três primeiras estavam ocupadas.

Anotei que o professor de Artes evitava a sala convencional e usava a biblioteca e a sala de Artes, porque eram melhores, e que só ia para a sala comum quando as outras duas estavam em uso.

Anotei que a disciplina exigia quarenta e cinco horas de regência e que o professor tinha condições de me ceder dez.

Anotei que o calendário da escola colocava a unidade de teatro no último trimestre, que termina em dezembro, e que o meu estágio acabava em setembro.

Anotei que os alunos eram de famílias com renda per capita abaixo de meio salário mínimo.

Anotei que um deles estava sem uniforme e que ninguém falou com ele durante a aula inteira.

Nenhum desses obstáculos era uma crença.

A sala ocupada estava ocupada. As trinta e cinco horas que faltavam não existiam. O calendário não podia ser convencido a mudar por pensamento positivo. E a renda daquelas famílias não era uma percepção equivocada sobre a própria capacidade.

Escrevi, naquele semestre, um projeto de cinquenta aulas de teatro para aquela turma, com caminhada pelo bairro, jogos, ensaios e uma peça no dia treze de dezembro.

Não aconteceu. O calendário não comportou, o professor não se interessou, e nenhum aluno se empolgou.

Se eu tivesse lido aquele projeto pela lente das crenças limitantes, concluiria que faltou confiança da minha parte. E estaria errado, e o erro seria conveniente para todo mundo, menos para mim.

Faltou folga. Não havia nenhuma, em lugar nenhum daquele sistema.

E é aqui que a expressão fica perigosa, porque ela devolve ao indivíduo a conta inteira.

Se tudo o que te impede é uma crença sua, então tudo o que te aconteceu é responsabilidade sua. A escola sem sala vazia sai da equação. O orçamento sai. A cor e o CEP saem. O que sobra é uma pessoa que não acreditou o suficiente.

Isso não liberta ninguém. Só acrescenta culpa à falta.

O trabalho honesto é mais chato e é de dois lados.

De um lado, identificar quais das minhas paredes são feitas de frases que alguém disse sobre mim, e derrubar essas. Elas existem e são muitas.

Do outro, reconhecer quais paredes são de alvenaria, e parar de me acusar por não atravessá-las.

Confundir as duas é o erro que custa mais caro, e ele acontece nas duas direções.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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