Artes & Narrativas

Ninguém ali conhece Oprah

Abra qualquer livro de autoajuda brasileiro no capítulo dos exemplos inspiradores e você vai encontrar as mesmas pessoas.

Oprah Winfrey. Nelson Mandela. Malala. Madre Teresa. Steve Jobs. Um monge budista, geralmente Thich Nhat Hanh.

São pessoas admiráveis, e nenhuma delas mora aqui.

Reparei nisso porque passei o último ano relendo tudo o que escrevi em vinte anos, e os meus exemplos são outros.

Um padeiro demitido no morro do Alagoano, que acendeu o forno em casa e passou a vender pão doce pelas frestas de um portão gradeado que nunca abria.

Um professor de Artes de escola pública que comprou uma caixa de lápis de cor com mais de sessenta cores para um aluno cuja família não podia comprar.

Um homem que saiu do velório da própria tia, de madrugada, atravessou a cidade e tocou a minha campainha às onze da noite porque a minha avó tinha morrido no mesmo dia.

Meu pai, que constrói com as próprias mãos o que a igreja precisa, paga do bolso o que a instituição se recusa a pagar, e não comenta.

Meus pais, que receberam um mangue de presente e passaram anos enchendo aquilo de areia, balde por balde, carrinho por carrinho, para que os filhos tivessem onde brincar.

Nenhum deles ganhou prêmio. Nenhum é citado em livro nenhum. Todos fizeram coisas que exigiram mais deles, proporcionalmente, do que qualquer coisa exigiu de gente famosa.

E aqui está o que me incomoda no exemplo importado, e não é bairrismo.

Quando o modelo é Oprah, a lição que chega ao leitor é: se você tiver muito talento e muita sorte e trabalhar muito, um dia você pode ser extraordinário.

Quando o modelo é o padeiro do Alagoano, a lição é outra: você foi demitido, tem um forno e tem farinha, e dá para começar amanhã.

O primeiro produz admiração e paralisia. O segundo produz uma ideia.

Há também uma questão de escala que ninguém comenta. As biografias inspiradoras são todas de pessoas cujas vidas mudaram o rumo de países. Um adolescente de escola pública que lê aquilo não conclui que pode fazer o mesmo. Conclui, corretamente, que aquilo não tem nada a ver com ele.

Já o professor de Artes que compra sessenta lápis com o salário de professor de Artes está fazendo uma coisa que qualquer pessoa que lê pode fazer na segunda-feira.

Não estou dizendo que se deva parar de admirar gente grande. Mandela é Mandela.

Estou dizendo que a distância entre a vida do leitor e a vida do exemplo é, ela mesma, uma informação. E que um livro cheio de exemplos distantes ensina, antes de qualquer coisa, que a virtude acontece longe.

O que é falso, e é o oposto do que eu vi.

Tudo o que eu presenciei de verdadeiramente admirável em quarenta e um anos aconteceu num raio de vinte quilômetros da minha casa, e nenhuma daquelas pessoas achou que estava fazendo algo digno de nota.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *