O projeto que virou outra tese
Encontrei, revirando arquivos, um projeto de pesquisa de doutorado que escrevi e que não é o doutorado que eu faço.
A pergunta de pesquisa daquele projeto era esta:
Como a produção artística pode contribuir para a formação de subjetividades críticas e sensíveis nas práticas educacionais?
O projeto queria estudar o que a arte faz com uma pessoa. Como a experiência estética muda o jeito de alguém olhar o mundo. Como a formação de um sujeito sensível acontece, e o que a escola tem a ver com isso.
A tese que eu escrevo hoje investiga outra coisa: O que acontece quando o processo se emancipa do propósito.
Levei um tempo para perceber que são a mesma pergunta.
Uma investiga o que forma um sujeito sensível.
A outra investiga o que o deforma.
E o objeto de estudo, nos dois casos, é o mesmo: a subjetividade de alguém dentro de uma instituição de ensino, submetida a forças que ele não escolheu.
O que mudou foi de que lado eu resolvi olhar.
O projeto antigo é otimista. Pressupõe que existe uma potência na arte, que ela pode ser mobilizada, que a escola pode ser lugar disso, e que o problema é de método e de política pública. É um projeto que quer descobrir como fazer dar certo.
A tese atual não é pessimista, mas parte do outro lado. Ela pergunta o que já está acontecendo com as pessoas, sem que ninguém tenha decidido, dentro de sistemas que ninguém controla inteiramente.
E eu sei exatamente onde a virada aconteceu, porque está escrita em documentos com data.
Entre um projeto e outro, eu passei meses dentro de uma escola pública de tempo integral.
Vi que a coordenadora precisava abrir quatro portas para achar uma sala vazia. Vi um professor de Artes dando aula com slides projetados para copiar, numa turma que não sustenta quinze minutos de atenção. Perguntei aos alunos o que achavam de Artes e eles responderam que não era importante. Anotei o meu espanto com o pragmatismo daquelas crianças de doze anos.
E projetei cem horas de teatro para eles, que nunca aconteceram, porque não havia folga em lugar nenhum.
Foi ali que a pergunta virou.
Deixei de perguntar como a arte forma pessoas sensíveis e passei a perguntar por que uma criança de doze anos já sabe classificar conhecimento por utilidade.
As duas perguntas são boas. A segunda é a que eu encontrei no campo, e por isso é a que eu consigo responder.
Guardo o projeto antigo. Ele tem uma coisa que a tese atual não tem, e que eu não quero perder de vista: a suposição de que existe alguma coisa do outro lado da denúncia.
Descrever uma jaula não liberta ninguém.
E, quando eu terminar de descrever a minha, é aquele projeto que vou ter que voltar a ler.


