Educação & Cuidado

Sapatilha de ponta

Em um projeto de curso de dança que desenvolvi, a aula cinco era sobre ballet clássico.

Escrevi que exploraríamos os princípios do ballet, como postura, alinhamento e técnicas de ponta. E que faríamos exercícios de barra e de centro, desenvolvendo a técnica e a graciosidade do movimento.

Sessenta minutos. Turma de sexto ano. Escola pública.

Trabalho de ponta é uma das coisas mais exigentes que existem na dança. Exige anos de preparo anterior, força de tornozelo construída aos poucos, e maturação óssea que nem toda criança de onze anos alcançou. Uma professora de ballet responsável leva anos decidindo quando uma aluna pode subir na ponta, e às vezes decide que não pode.

Eu escrevi isso numa linha, entre a barra e o centro, como se fosse conteúdo de uma tarde.

Não foi arrogância. Foi ignorância, no sentido literal: eu não sabia o que estava escrevendo.

Sou licenciado em Teatro. Não sou bailarino, nunca fiz aula de ballet, e o meu conhecimento do assunto vem de leitura. Ao planejar uma aula sobre ballet, eu montei uma sequência que parecia correta para quem lê sobre ballet, e que é irrealizável para quem faz.

E o que me interessa aqui não é o meu erro. É a estrutura que o produz.

A escola brasileira chama de Arte uma disciplina que reúne quatro linguagens: artes visuais, música, dança e teatro. Quatro campos com séculos de tradição, formação própria, vocabulário próprio e corpo próprio.

E um professor só.

O sujeito se formou em uma delas, no máximo duas, e é responsável pelas quatro. Ele vai passar a carreira inteira ensinando três coisas que não domina, com material de segunda mão, para turmas de trinta.

Eu vi isso de perto quando fiz estágio. O professor que observei trabalhava artes visuais no primeiro trimestre, música no segundo, dança e teatro no terceiro. Sozinho.

E anotei, sem entender direito, que ele preferia usar a sala de Artes e a biblioteca, que evitava a sala convencional, que projetava slides para copiar e que a turma não sustentava quinze minutos.

Ele estava racionando o que tinha.

Hoje eu leio o meu próprio plano de curso e vejo o mesmo homem, com a mesma limitação, disfarçada de competência porque estava escrita em linguagem de projeto.

O plano parecia bom. Tinha ementa, objetivo geral, objetivos específicos, metodologia, avaliação e cronograma com datas.

E previa que crianças de onze anos subissem na ponta numa quarta-feira à tarde.

A parte formal do documento estava impecável. A parte que exigia saber a coisa, não.

É esse o tipo de erro que a boa formatação esconde melhor.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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