Filosofia & Teologia

Um pastor lendo Nietzsche

Escrevi, num resumo de disciplina, que a verdade é uma construção social, subjetiva e relativa, que varia conforme o contexto cultural e histórico, e que reflete as ideologias e os valores de uma determinada época.

Escrevi isso oito vezes, com palavras diferentes, ao longo de duas páginas.

E entreguei sem nenhum desconforto.

Sou ministro do Evangelho. Prego há mais de vinte anos numa tradição em que alguém diz, em João 14, que é o caminho, a verdade e a vida.

Não é possível sustentar as duas coisas ao mesmo tempo sem que aconteça alguma coisa, e não aconteceu nada, porque eu não reparei.

Isso é o que a linguagem acadêmica faz melhor: ela permite escrever posições que não são as suas sem que você perceba que as escreveu, porque a frase vem pronta, com o autor entre parênteses, e você acha que está apenas relatando.

Mas eu não estava apenas relatando. Eu estava reproduzindo uma leitura específica de Nietzsche, e ela é a mais rasa das leituras possíveis daquele ensaio.

A versão que eu escrevi é a de manual: a verdade é construída, portanto tudo é relativo, portanto cada um com a sua.

Não é isso que aquele texto diz.

Nietzsche não está dizendo que qualquer coisa vale o mesmo. Está dizendo que as verdades que carregamos são metáforas que se gastaram até parecerem descrição, e que a maioria das pessoas nunca examina de onde vieram. É uma acusação de preguiça, não uma autorização para inventar.

Um texto que denuncia o esquecimento das origens da linguagem não conclui que tudo dá na mesma. Conclui que quase ninguém sabe o que está dizendo.

E aí ele deixa de ser adversário da fé e passa a ser inconveniente para todo mundo, inclusive para quem prega.

Porque o púlpito é uma fábrica de moedas gastas.

Palavras enormes, repetidas semanalmente, por décadas: graça, salvação, arrependimento, glória, redenção, unção. Cada uma delas foi, um dia, uma imagem concreta com efígie visível. Graça era um favor que não se merecia. Redenção era pagar o preço de alguém preso.

Hoje, na boca de muita gente, são metal liso. A congregação ouve, concorda, e não vê nada.

O trabalho de quem prega, então, é exatamente o mesmo trabalho de quem escreve: descobrir onde a moeda apagou e devolver a efígie.

Não trocando a palavra por outra da moda, o que só fabrica moedas novas para gastar rápido.

Contando de novo o que ela significava quando alguém a cunhou.

E é curioso perceber que o filósofo que a minha tradição costuma tratar como inimigo foi quem me deu o diagnóstico mais útil sobre o meu próprio ofício.

Não sobre a verdade que eu prego.

Sobre as palavras com que eu a pregava sem prestar atenção.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *