Um diálogo sem diálogo
Escrevi um resumo de O Sobrinho de Rameau, de Diderot, e não usei uma única fala.
O texto de Diderot é um diálogo. É a forma inteira dele. Duas vozes numa mesa de café, marcadas apenas como Eu e Ele: de um lado o filósofo, do outro o sobrinho do célebre compositor, músico fracassado, parasita profissional, que vive das mesas alheias e sabe disso.
Eles conversam, discordam, se interrompem, e o sobrinho, num certo momento, se levanta e imita uma ópera inteira, fazendo com o corpo os instrumentos e as vozes, no meio do estabelecimento, enquanto as pessoas olham.
É por essa cena que o livro é lembrado.
E eu escrevi catorze parágrafos dizendo que Diderot explora as complexidades da natureza humana, questiona as convenções sociais e revela a ambiguidade moral.
Nenhuma fala. Nenhum gesto. Nenhum café.
Descrevi um diálogo na língua que serve para descrever qualquer coisa.
E o que me incomoda não é ter feito um resumo ruim. É que eu sei fazer diferente, e a prova está no que escrevo quando ninguém está avaliando.
O melhor texto que eu já escrevi termina com uma discussão de duas falas. Eu, com ciúme de um romance de banca de jornal que fazia minha mulher rir, provoco: não sei que graça tem ficar lendo e rindo, ler livro é estático. E ela, sem levantar os olhos da página, responde: ler é muito divertido.
Quatro palavras dela, e a discussão acabou.
Num outro texto, sonhei com um teatro abandonado. Um menino desceu do palco, atravessou o corredor e me perguntou por que eu estava escondido na última fileira. Respondi que era seguro. Ele disse: eu brigava para ser o maior de todos e terminava machucado, você se esconde para ser o menor de todos e já está machucado de qualquer jeito.
Nos dois casos, o que faz o texto funcionar é uma voz que não é a minha dizendo uma coisa que eu não diria.
É exatamente o procedimento de Diderot.
E, quando me pediram para resumir o inventor daquele procedimento, eu apaguei todas as vozes e entreguei um parágrafo sobre a complexidade da psique humana.
A língua acadêmica faz isso, e faz por bons motivos: ela quer o argumento, não a anedota.
Mas há textos cuja forma é o argumento.
Resumir O Sobrinho de Rameau sem diálogo é como resumir uma sinfonia dizendo que ela trata da alternância entre tensão e resolução.
Está certo. E some com a música.


