Artes & Narrativas

Dois personagens, um homem

Escrevi uma cena de teatro com dois personagens que se reencontram numa biblioteca, depois de muitos anos.

Fiz o perfil dos dois, com idade, aparência, história, personalidade, hobbies, figurino e maquiagem.

E só agora, relendo, percebo que dividi a mim mesmo em duas pessoas.

Matheus tem trinta e quatro anos. É reservado e introspectivo, o que contrasta com a vivacidade da juventude dele. Foi o garoto de ouro da cidade: bom aluno, atleta, carismático. Depois de uma perda, passou anos tentando preencher o vazio com diversos hobbies e carreiras. Formou-se em engenharia, mas a paixão verdadeira sempre foi a carpintaria, aprendida com o avô. Usa no pulso um relógio de couro que foi presente do avô. Ama as coisas simples: o cheiro da madeira, o som da chuva, um bom livro.

Helena tem trinta e dois. Saiu da cidade pequena porque sentia que o mundo tinha mais a oferecer. Viajou, trabalhou fotografando outras culturas, viu o mundo. E escrevi sobre ela esta frase: ainda que a jornada tenha sido incrível, um vazio sempre a acompanhou. Ela tinha tudo, mas sentia que lhe faltava algo essencial.

Agora veja o que eu escrevi sobre mim, em textos que não têm nada a ver com essa peça.

Que aos seis ou sete anos eu quis ser executivo, pastor, bombeiro, médico, juiz, gari, cantor e filósofo, e que depois tentei psicologia, ciências sociais, direito, história, até parar na administração, e depois filosofia, teologia e teatro.

Diversos hobbies e carreiras.

Que o meu pai constrói com as próprias mãos o que precisa ser construído, e que a economia de gesto dele ocupa uma sala inteira sem levantar a voz.

Que dois relógios suíços ficaram retidos na alfândega e custaram oitocentos reais de imposto, e que aquilo virou um dos textos que eu mais reescrevi.

Que o meu gabinete tem as paredes tomadas por estantes, e que da minha cadeira eu vejo a chuva bater na janela.

Que aos quarenta e um anos eu carrego a convicção de ter desperdiçado duas décadas, e que há no centro da minha arquitetura interna um lugar vago, uma peça teimosa fora do encaixe.

Ele tinha tudo, mas sentia que lhe faltava algo essencial.

Matheus é o homem que ficou, trabalha com madeira, gosta de chuva e de livro, e nunca se recuperou.

Helena é a que saiu, conseguiu tudo, e voltou vazia.

Não são duas pessoas. São duas hipóteses sobre a mesma vida, colocadas frente a frente numa sala, para ver o que uma diria à outra.

E há uma coisa que só se enxerga juntando este documento com o anterior.

Ao descrever o cenário daquela peça, eu não mencionei nenhum personagem. Descrevi a sala inteira, a luz de cada canto, os livros, a mesa, a garrafa de tinta com pena, e nenhuma pessoa.

Achei, ao reler, que tinha projetado um quarto para ficar sozinho.

Não era isso.

Era um quarto onde eu ia chegar duas vezes.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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