A mesma sala, dois relatórios
Fourez sustenta que observação não é registro passivo. É atividade interpretativa, moldada por teorias e conceitos que já estão na cabeça de quem olha. O observador não capta o mundo: ele constrói o que vê, a partir do que trouxe.
Li isso e resumi para uma disciplina, como se fosse tese alheia.
Mas eu tinha, guardada num arquivo, a demonstração.
Em 2022 passei meses observando a mesma turma de sétimo ano, numa escola pública de tempo integral, e escrevi dois relatórios com um semestre de diferença.
No primeiro, anotei que a maioria dos alunos não conseguia ficar sentada dez minutos, levantando-se nem que fosse para não fazer nada e sentar de novo. E acrescentei: percebi que é uma característica comportamental que deve ser trabalhada.
No segundo, anotei que a retenção de atuação das turmas é de quinze a vinte minutos por aula, e que eu trabalharia dentro dessa perspectiva.
Mesma turma. Mesmo comportamento. Mesmo observador.
E dois fatos diferentes.
No primeiro relatório existe um defeito, localizado nos alunos, que alguém deve corrigir. No segundo existe um parâmetro, localizado na situação, para o qual alguém deve projetar.
Não mudou nada na sala. Mudou a moldura que eu levei para dentro dela.
E é exatamente isso que Fourez descreve. A observação não me entregou o fato. Eu levei uma teoria comigo, e a teoria decidiu o que apareceria como fato.
Encontrei outros casos no mesmo caderno.
Anotei que um aluno estava descaracterizado, que é o termo administrativo para quem está sem uniforme, e não vi que a palavra diz, ao pé da letra, privado de características. A moldura do vocabulário escolar entregou o termo pronto, e o termo passou.
Anotei que a escola funcionava no antigo prédio de uma faculdade de saúde, com vista panorâmica e auditório, e classifiquei aquilo como observação estética. Só anos depois enxerguei que era uma observação sobre classe.
Anotei que a coordenadora abriu quatro portas até achar uma sala vazia, e registrei como detalhe de acolhimento. Era o diagnóstico da escola inteira.
Nos quatro casos eu vi corretamente e classifiquei mal, e a classificação errada não foi descuido: foi a única disponível na moldura que eu tinha.
O que me interessa aqui não é a autocrítica.
É que existe uma consequência prática para quem faz pesquisa de campo, e ela é desconfortável.
Se a moldura determina o fato, então o caderno de campo não é só um registro do que aconteceu. É também um registro de quem eu era quando anotei.
E por isso ele só fica completo quando alguém o relê anos depois, com outra moldura, e descobre que estava tudo lá.


