Uma senhora toma chá
Usei, num artigo sobre a invisibilidade das contribuições femininas, o livro de David Salsburg que se chama Uma Senhora Toma Chá.
Escrevi que Salsburg narra a história de uma mulher cujas observações simples e rigorosas resultaram em avanços significativos para a estatística moderna, e que foram desconsideradas por causa do gênero dela.
Não foi bem isso, e a história verdadeira serve melhor ao meu argumento.
O episódio é dos anos vinte, em Cambridge. Numa reunião com chá, uma mulher afirmou que conseguia distinguir se o leite tinha sido colocado antes ou depois do chá na xícara.
Os homens presentes acharam graça.
Um deles, Ronald Fisher, não achou. Propôs testar: preparou várias xícaras, metade de cada jeito, em ordem aleatória, e pediu que ela identificasse.
Ela acertou.
E daquele teste saiu boa parte do desenho experimental moderno. Aleatorização, formulação de hipótese, cálculo da probabilidade de acerto por acaso. Fisher usou o caso anos depois, no livro em que estabeleceu os fundamentos do método experimental.
O livro de Salsburg leva o nome dela no título.
O nome dela, não.
Ela se chamava Muriel Bristol, era cientista, algologista, e trabalhava numa estação experimental agrícola. Não era uma senhora qualquer numa festa: era pesquisadora, e a percepção que ela afirmou ter tinha base no que ela sabia sobre química e sobre paladar.
E ela entrou para a história da estatística como “uma senhora”.
O que eu escrevi no artigo estava errado num detalhe e certo no essencial.
Errado porque as observações dela não foram desconsideradas: foram testadas, e ela venceu o teste.
Certo porque o crédito ficou inteiro com quem desenhou o experimento, e ela virou o objeto anônimo dele.
E, corrigida, a história é melhor.
Porque mostra uma forma de invisibilização mais difícil de combater do que a recusa aberta.
Ninguém a silenciou. Ela falou, foi levada a sério por um cientista sério, foi testada com rigor e acertou.
E ainda assim, cem anos depois, todo mundo sabe quem é Fisher e quase ninguém sabe que existiu Muriel Bristol.
Não é o mesmo que ser calada. É ser reduzida à ocasião de uma descoberta alheia.
E é isso que acontece com muita gente dentro das instituições, inclusive nas que eu conheço.
Alguém percebe uma coisa e comenta em reunião. Outra pessoa desenvolve, escreve, apresenta e assina.
Não há má-fé em nenhum momento. Simplesmente uma parte da cadeia tem nome, e a outra é a senhora que tomou chá.


