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A árvore de papelão

Para montar o cenário de uma peça, os alunos foram até o supermercado ao lado do campus pedir caixas de papelão.

Voltaram com o material e começaram a recortar duas colunas e uma árvore.

Enquanto pintava, uma das estudantes contou o que estava pensando.

Disse que imaginou aquela árvore como se fosse ela mesma. Que sentiu como se estivesse saindo de si e entrando num filme, e voltando logo em seguida. Disse que imaginou a própria vida como aquele papelão sendo recortado, sendo moldada.

Ela tem quinze anos.

Fico com essa cena por dois motivos.

O primeiro é o papelão.

Aquela peça não teve orçamento. O cenário saiu de caixas descartadas por um supermercado, o figurino foi montado com roupas dos próprios alunos, tinta guache e TNT. Não houve verba, não houve compra, não houve fornecedor.

Já escrevi sobre uma professora de escola pública que comprou sessenta lápis de cor com o próprio salário para um aluno que não podia comprar. E sobre um plano de aula em que os alunos fariam bonecos de mamulengo com cartolina, porque cartolina é o que a escola tem.

O papelão do supermercado é da mesma família. É o que existe.

E ninguém ali reclamou da falta. Foram buscar caixa, cortaram, pintaram e chamaram de cenário.

O segundo motivo é o que ela disse.

Ninguém pediu que aquela menina refletisse sobre a própria formação. A atividade era recortar papelão e pintar de verde.

E, com a tesoura na mão, ela chegou sozinha a uma ideia que é filosoficamente séria: que uma vida é moldada por cortes, que os limites criam a forma, e que aquilo que parecia descartável recebe valor conforme alguém trabalha em cima.

Ela não usou nenhuma dessas palavras. Falou de papelão.

E é exatamente isso que eu tentei dizer no trabalho inteiro com a expressão pensamento encarnado, gastando noventa páginas e uma dúzia de autores europeus.

Uma adolescente pintando uma árvore de papelão chegou lá em duas frases, sem citar ninguém.

O que me leva a uma desconfiança que carrego desde então.

Talvez o pensamento encarnado não seja uma coisa que a escola precisa ensinar.

Talvez seja uma coisa que já acontece o tempo todo, em qualquer criança com uma tarefa manual nas mãos, e que a escola precisa apenas parar de interromper.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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