Pólis & Gestão

Catracas invisíveis

A trajetória na carreira pública é atravessada por uma fome de expansão: a urgência de romper barreiras, dilatar o próprio conhecimento e testar os limites da própria capacidade. Movido por isso, um jovem concursado decide arriscar-se no processo seletivo de uma pós-graduação, território que prometia as chaves para o próximo salto. Sabia que pisaria fora da zona de conforto e longe do reduto das exatas, e ainda assim o frio na barriga foi engolido pelo desejo de provar a si mesmo até onde poderia chegar.

O veredito das bancas foi um espetáculo. Ele não apenas garantiu a vaga: cravou o nome no topo da lista. O desempenho na prova escrita e na redação passou à frente do currículo de gerentes e de executivos consolidados. Não foi sorte. Foi disciplina. E carregava uma constatação irrefutável: o esforço silencioso tem força para arrombar portas e implodir hierarquias de berço.

Havia, porém, a coordenação do curso, presença quase diária que, na cabeça do jovem, deveria personificar a liderança daquele sonho acadêmico. Por acaso, a notícia do desempenho chegou até ela. Onde deveria haver o entusiasmo natural de uma educadora diante do mérito, surgiu o descrédito. O rosto contorceu-se em um milissegundo de rejeição quase física, como se a aprovação daquele candidato fosse uma afronta pessoal. Era a recusa em aceitar que alguém fora da redoma de expectativas tivesse superado os perfis de destaque pré-aprovados mentalmente.

Aquela incredulidade não era espanto. Era o sintoma do elitismo que assombra os corredores institucionais, a recusa em admitir que alguém sem as grifes corporativas tivesse roubado a cena. Era o reflexo exato das catracas invisíveis que o sistema ergue para tentar frear quem ousa crescer fora do script.

Para o jovem, aquele olhar serviu como vacina: a comprovação de que o reconhecimento legítimo raramente vem da chancela de terceiros. A batalha não termina na publicação do edital de aprovação. Continua na resistência diária contra a descrença alheia.

A vitória não estava na posição do ranking, mas na clareza de que ele não precisava daquela validação para saber quem era. O verdadeiro crescimento prescinde da permissão dos outros.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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