Filosofia & Teologia

Fogo consumidor

Há uma crença popular de que Deus é incapaz de odiar, que a Sua essência se resume a um afeto inofensivo, tornando qualquer repulsa incompatível com a Sua natureza. Essa percepção é teologicamente frágil. Deus abomina tudo aquilo que entra em atrito com a Sua pureza, e o mistério do amor e da ira divina está justamente nessa justiça. O amor de Deus, para ser autêntico e não mera permissividade, exige o equilíbrio da Sua santidade.

As Escrituras ensinam que o Criador é amor, e também que é fogo consumidor (Hebreus 12:29). Nenhuma dessas características anula a outra: coexistem, formando o todo de quem Ele é. Deus não faz concessões quanto à própria identidade, pois nEle não há variação nem sombra de mudança (Tiago 1:17). Ele é paz e ira, amor e justiça, de forma simultânea. Essa é uma verdade aterradora, pois revela que o Todo-Poderoso jamais violará a própria essência para acomodar as nossas falhas.

O amor não sabota a justiça, e a justiça não ignora a santidade. No instante em que Deus ama o pecador com graça imerecida, Ele repudia o seu pecado com furor. Como cravou o salmista: “Odeias a todos os que praticam a maldade” (Salmos 5:5). A Bíblia decreta que todos pecaram (Romanos 3:23), colocando a humanidade inteira sob a mira desse justo desagrado. E a mesma Palavra anuncia que Ele amou o mundo de tal maneira (João 3:16). O amor é o dom gratuito da Sua graça; a ira é a resposta da Sua justiça à ofensa contra a Sua santidade.

A justiça exige que cada um receba o seu salário exato, e a nossa natureza decaída reivindica a morte (Romanos 6:23). Portanto, se a ira divina for derramada sobre nós, será por mérito nosso. Diante desse tribunal, a minha única reação possível é implorar que Ele nos livre da condenação que tão merecidamente conquistamos, pois viver desprovido da presença de Deus é experimentar a morte eterna ainda em vida.

O dia da consumação aproxima-se. Enquanto toda a criação opera em obediência ao seu papel, o homem segue como a única criatura a afrontar a ordem divina. Eu mesmo ofendi, incontáveis vezes, a esse Deus grandioso e terrível.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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