Filosofia & Teologia

A primeira pessoa do plural

A paixão é o instante em que duas realidades colidem e, em vez de seguirem paralelas, fundem-se. Cada um se dissolve para dar à luz algo inédito: a primeira pessoa do plural. Emerge um nós que não existia na véspera. Quando a paixão se instala, ela dilui limites e mescla identidades em um amálgama que desafia a matemática.

A partir desse ponto, torna-se impossível decodificar a vida no singular. Cessa a divisão entre o eu e o você para que pulse uma nova entidade. O que um sente, o outro ecoa. O mundo passa a ser refletido pelos olhos dessa criatura, um espaço onde os gestos, os olhares e as fragilidades perdem os seus pronomes possessivos.

Esse nós recém-inaugurado é erguido sobre antigas renúncias. E, embora tudo seja partilhado, ele é também guardião de um mistério: o território onde a intimidade do outro não sofre invasão, e sim acolhimento. Não há mais duas vozes disputando a razão. Existe uma nova sintaxe.

É preciso dizer, porém, que isto descreve a paixão, e não o que vem depois dela. O uníssono é o estado inaugural. O que sustenta uma relação ao longo dos anos é outra coisa, e passa por aceitar que os dois nunca serão simétricos.

Estar apaixonado é aceitar a subversão da própria identidade em favor de uma obra maior. É permitir que o encontro de dois mundos distintos sublime aquilo que éramos quando estávamos sozinhos. É a coragem absurda de transcender a própria pele, habitar o outro e descobrir um pronome que não existia na véspera.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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