Filosofia & Teologia

Personagens de ventríloquo

A manipulação raramente se anuncia pelo próprio nome. Ela não veste a farda do tirano: aproxima-se travestida de conselho bem-intencionado, oferecendo a doce e venenosa promessa de aprovação. No calor desses instantes, o alvo dificilmente percebe o ardil, porque são pequenas e sucessivas concessões, microajustes quase imperceptíveis que, milímetro a milímetro, deslocam o sujeito para fora de si mesmo.

As sugestões chegam com a naturalidade ensaiada de quem oferece socorro. Você precisa ser mais descolado. Essa roupa é brega, vista-se melhor. Esse cabelo não está legal, faça alguma coisa.

Seduzido pela promessa implícita de aceitação, o indivíduo começa a negociar lotes da própria essência. Troca-se o guarda-roupa, ajusta-se a tesoura no cabelo, remodelam-se os hábitos. Aos poucos, instala-se uma identidade clandestina, um eu que nunca foi desejado nem reconhecido no espelho. Para agradar a um recorte social, o corpo é rebaixado a laboratório do desejo alheio.

A reboque dessa metamorfose imposta, chega a vergonha. É a sensação áspera de estar fora do próprio eixo, de habitar um manequim, de vestir um papel que rasga a pele.

E é aqui que a manipulação revela o seu avesso mais cruel: ela não forma pessoas, ela fabrica personagens de ventríloquo. Encena-se a graça quando, no fundo do peito, o que se mendiga é respeito.

A manipulação por imperativos estéticos corrói a autenticidade em camadas finíssimas. Quando o passaporte para a aprovação exige o silenciamento da própria voz, paga-se o pedágio mais caro da existência: troca-se a dignidade pela casca, o ser pelo parecer.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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