Talvez por medo, talvez por fé
Aos vinte e um anos eu via as moças no culto e não dirigia a palavra a nenhuma. Pedia que Deus escolhesse. Escrevi, naquele mesmo ano, uma frase que não consegui melhorar em duas décadas: assim me escondia atrás dessa verdade, talvez por medo, talvez por fé.
Elas foram embora sem que eu conhecesse suas vozes.
A frase permaneceu porque o problema permaneceu. Existe um silêncio que guarda e existe um silêncio que foge, e por dentro os dois são idênticos. Usam o mesmo vocabulário. Explicam-se com prudência, com espera, com discernimento, com confiança no tempo de Deus. Quem está calado por covardia não sente covardia: sente serenidade, ou coisa muito parecida com ela. É esse o problema. A covardia é boa demais em se apresentar como virtude para que a gente confie no que sente.
Preciso, então, de critérios que não dependam do que eu sinto. Encontrei três, e nenhum é confortável.
O primeiro é o prazo. O silêncio que guarda tem data, ainda que aproximada. Guardo isto até que a obra esteja de pé, até que a criança tenha idade, até que eu saiba o suficiente para não falar besteira. O silêncio que foge não tem termo nenhum, e nunca teve. Se eu perguntar quando ele acaba e não houver resposta, nem vaga, então ele não está esperando nada. Vai durar o quanto conseguir durar.
O segundo é o corpo. O silêncio escolhido é quieto por dentro também. O outro tem a mão indo em direção ao telefone e voltando, tem a frase pronta na boca e o maxilar travado, tem o corpo que não sai do lugar enquanto o pensamento já atravessou a sala. Escrevi isso a respeito de mim mais de uma vez antes de entender que era um sintoma e não uma cena. Quando a decisão é de fato uma decisão, o corpo não briga.
O terceiro é quem paga. O silêncio que guarda protege alguém ou alguma coisa: uma pessoa que ainda não aguenta ouvir, um projeto que desmorona se for exposto cedo, uma informação que não me pertence. O silêncio que foge protege a mim, e só a mim, da resposta que eu posso receber. Então a pergunta é direta: se eu falar e correr mal, quem sofre o prejuízo? Se a conta for inteirinha minha, é quase certo que estou com medo.
Nenhum dos três funciona bem na hora. Esse é o pior da história. No instante em que a decisão importa, o medo responde ao questionário com folga: inventa prazo, justifica a paralisia como prudência, e encontra sem dificuldade um terceiro que estaria sendo protegido. A verificação confiável é retrospectiva, e o preço dela são anos.
O que o silêncio produziu é o que diz o que ele era. O que gesta termina em alguma coisa: uma palavra dita depois, uma decisão tomada, um texto, uma mudança de rota. O que foge não termina em nada. Ele apenas continua, e um dia a pessoa vai embora, ou morre, ou casa com outro, ou muda de cidade, e o silêncio segue intacto porque nunca teve nada dentro.
Sei hoje qual era o meu.
Não era útero.


