Aula 01: café
O cronograma tem cinquenta linhas.
Da aula dois em diante, é o que se espera de um curso de teatro: possibilidades do corpo, danças populares, consciência corporal, linguagem postural, voz em harmonia com o movimento, improviso, roteiro, cenário, figurino, jogo de luz, quatro ensaios gerais e a apresentação.
A primeira linha é outra coisa.
Aula 01, 28 de junho de 2022: apresentação do projeto e coffee break especial com dinâmica de apresentação.
A primeira aula é um café.
Eu tinha acabado de passar meses observando aquela turma. Alunos de famílias com renda per capita abaixo de meio salário mínimo, na Grande São Pedro, numa escola de tempo integral, dentro de um prédio adaptado de faculdade privada.
E, na hora de projetar o meu próprio curso, a primeira coisa que coloquei no papel foi comida.
Não escrevi nenhuma justificativa pedagógica para aquilo. Não tem fundamentação teórica de café. Nenhum autor da bibliografia recomenda começar por ali.
Escrevi porque me pareceu óbvio.
E hoje eu sei de onde vem essa obviedade.
Cresci numa casa onde cada objeto que chegava às minhas mãos era resultado de esforço familiar, e onde a fartura, quando havia, era o sinal mais claro de que aquele lugar te queria. A casa da minha avó tinha uma vida que transbordava, e uma mesa. As igrejas da minha infância funcionavam em casas de gente, e depois do culto tinha café.
Eu aprendi cedo que ninguém entra de verdade num lugar onde não recebeu nada.
Quando você chama trinta e um adolescentes para um curso extra, no contraturno, sobre uma disciplina que eles mesmos disseram não considerar importante, você tem um problema imediato: por que eles viriam?
E a resposta não é o conteúdo. Nenhum garoto de doze anos aparece numa terça-feira à tarde por causa de consciência corporal.
A resposta é que alguém preparou alguma coisa para eles.
O café não é aquecimento para a aula. É a aula. É a primeira informação que o grupo recebe sobre o que aquele espaço vai ser, e ela chega antes de qualquer palavra: aqui tem para você.
Depois disso, dá para falar de corpo, de voz e de improviso durante seis meses.
Antes disso, não.


