Nem toda brincadeira é jogo
Numa atividade da licenciatura, escrevi uma distinção que continuo achando certa.
Nem toda brincadeira é jogo. E entretenimento não é jogo.
O jogo do faz de conta reúne quatro coisas: improvisação, enredo, cenário e uma estrutura lógica de execução. A criança assume um personagem, define um espaço e sustenta uma regra. Isso é teatro, ainda que ninguém ali saiba a palavra.
O entretenimento não pede nada disso. Ele chega pronto, com enredo, cenário e personagem já decididos por outra pessoa, e o que se espera de quem recebe é atenção.
A diferença é de posição. Numa, você é autor. Na outra, você é destinatário.
E aqui eu preciso confessar de onde veio essa distinção, porque não veio da bibliografia.
Cresci num quintal que meus pais fizeram com areia carregada em balde, e naquele chão eu não brincava: eu produzia. A área de serviço virava palco. Uma banheira velha virava mar, e eu remava dentro dela até o fim da tarde. Um galho virava espada. Uma caixa de fósforos virou caixão de formiga, com dois palitos em cruz por cima. Caixa de pasta de dente virava ônibus. Pregador de pendurar roupa em varal virava boneco. Embalagem de bombons da garoto viravam capa personalizada dos bonecos. A areia virava pista.
Improvisação, enredo, cenário e estrutura lógica. Os quatro elementos, todos ali, aos seis anos, sem nenhum adulto por perto explicando nada.
E depois, aos sete, vi dois homens de cabelo comprido cantando em cima de um palco improvisado no meio da rua, imitando uma dupla sertaneja, e aquilo nunca mais saiu de mim.
Um menino embaixo do palco e um menino fazendo palco. As duas coisas no mesmo ano.
Aos quarenta, me formei em Teatro.
Eu passei a vida achando que os jogos da infância tinham sido preparação para alguma coisa. Não foram preparação. Eram a coisa.
O que a licenciatura me deu não foi o teatro. Foi o nome do que eu já fazia no quintal antes de saber ler direito.
E é por isso que essa distinção me importa mais do que uma questão de vocabulário.
Uma criança entretida está bem. Não há nada de errado em receber uma história pronta, e a maior parte da cultura humana funciona assim.
Mas uma criança que joga está fazendo outra coisa: está descobrindo que o mundo pode ser reorganizado por ela. Que aquela banheira furada, que para todo mundo é lixo no quintal, pode ser mar se ela decidir que é.
Isso não é fantasia. É a primeira experiência de autoria que um ser humano tem.
E quem teve essa experiência sabe, pelo resto da vida, que o que está posto não é a única versão possível.


