Economia dos meios
Entre os princípios técnicos do trabalho com bonecos, anotei este:
Economia dos meios. A precisão é mais poderosa que a quantidade de ações.
E depois listei os outros: o foco, a indicação pelo olhar, a triangulação que busca o diálogo, a manutenção do nível do boneco em relação a um ponto fixo, e a respiração.
Todos são formas de fazer menos.
Um boneco que se mexe o tempo todo não está vivo. Está agitado, que é outra coisa. O que produz a ilusão de vida é o contrário: um gesto por vez, na hora certa, e depois a quietude. É a pausa que faz o público acreditar, porque é na pausa que a coisa parece estar decidindo.
Quem manipula demais mata o boneco de excesso.
Aprendi esse princípio muito antes de ler sobre ele, e não foi no teatro.
Meu pai é um homem de economia de gesto. Senta perto da porta. Constrói com as próprias mãos o que precisa ser construído. Paga do bolso o que a instituição se recusa a pagar, e não comenta. Não levanta a voz. Em todos os anos que tenho de memória, eu o vi chorar uma única vez, e ele disse uma palavra só.
Nunca precisou de mais do que isso para ocupar uma sala inteira.
E eu passei a vida fazendo o oposto no papel.
Escrevi textos com três metáforas onde cabia uma. Chamei a mesma coisa de âncora, de força gravitacional, de ímã e de fração de segundo, em vinte anos de repetição que eu não enxergava. Coloquei adjetivo em cima de substantivo que já dizia tudo. Fechei textos bons com parágrafos que explicavam o que a cena já tinha mostrado.
Excesso de manipulação.
E o mais interessante é que os meus melhores textos são justamente aqueles em que eu não tentei nada. O relato de um rapaz humilhado num ônibus, sem uma única figura de linguagem. Uma mulher lendo um romance de banca no sofá vermelho. Um cartório onde se registra o primeiro choro.
Nesses, eu fiz o que meu pai faz: um gesto, na hora certa, e depois calei.
O princípio do ator-animador e o princípio do meu pai são o mesmo princípio, e nenhum dos dois foi aprendido em livro.
A precisão é mais poderosa que a quantidade de ações.
Levei quarenta anos e uma resenha de teatro de bonecos para ler isso escrito.


