Filosofia & Teologia

O bem que já está dentro

A promessa central de quase todo livro de autoajuda é esta: o que você procura já está dentro de você. Basta descobrir, acreditar, cultivar.

É uma frase bonita, e eu entendo por que ela vende. Ela dispensa qualquer coisa vinda de fora. Não exige pedir, não exige depender, não exige admitir falta.

E é o oposto do que eu creio, e do que eu vi.

Escrevi, em outro lugar, que a graça não opera no clube dos autossuficientes. Ela opera no solo dos quebrantados. E escrevi que Deus convoca a pessoa na condição de ruína, sem exigir que ela se apresente melhorada primeiro.

Isso não é humildade retórica. É uma descrição de como a coisa funciona.

Se o bem já estivesse dentro, a fé seria desnecessária. Bastaria autoconhecimento.

E, mais grave: se o bem já estivesse dentro, quem não conseguiu chegar a lugar nenhum teria falhado em encontrar o que estava ali o tempo todo. A pobreza vira falta de escavação. A depressão vira preguiça de olhar para dentro. O fracasso vira negligência com o próprio tesouro.

Não conheço doutrina mais cruel disfarçada de gentileza.

Também não é o que a minha vida mostra.

Passei quarenta anos com uma vergonha nuclear que não cedeu a nenhuma quantidade de esforço interior. Ela não cedeu quando eu me formei, não cedeu quando passei em concurso, não cedeu quando comecei a pregar, não cedeu quando terminei o mestrado.

O que mexeu nela, quando mexeu, veio sempre de fora.

Foi um homem batendo no meu portão às onze da noite, de luto, para dividir o meu.

Foi uma mulher deitada num sofá vermelho que, sem levantar os olhos do livro, respondeu à minha provocação com quatro palavras e ganhou a discussão.

Foi um menino num sonho, subindo num caixote e caindo dele, que me perguntou por que eu estava escondido na última fileira.

Foi um professor de escola pública comprando lápis de cor.

Nenhum desses momentos veio de dentro. Todos vieram de alguém.

E é por isso que o livro que eu poderia escrever sobre esse assunto teria uma tese diferente, e menos vendável: a mudança quase nunca é obra do sujeito sobre si mesmo. Ela chega por meio de outra pessoa, e chega depois do cansaço, não antes.

Ninguém sai da caverna porque enfim se convenceu. Sai quando o cansaço do escuro fica maior que o medo dos lobos, e quase sempre porque alguém, do lado de fora, continuou chamando.

Se há um bem dentro de mim, ele foi colocado ali.

E eu sei o nome de várias das pessoas que colocaram.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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