A autoavaliação que não avalia
Escrevi duas autoavaliações de disciplina durante a licenciatura, com um ano de diferença.
Uma delas é o documento mais honesto que eu já entreguei a uma universidade.
A outra não diz absolutamente nada.
A primeira é de maio de 2022. O formulário pedia os pontos fracos do meu percurso, e eu respondi com uma lista de marcadores: o retorno presencial depois da pandemia, o acúmulo de trabalho deixado por colegas que saíram do meu setor, problemas de saúde, mortes na família, dívidas que eu não estava conseguindo pagar.
E, num campo sobre estratégias de estudo, escrevi em letras maiúsculas, no meio de um documento acadêmico, que eu havia travado.
A segunda é de 2023, da disciplina seguinte. Nela eu escrevo que adquiri base teórica sólida, desenvolvi habilidades de escuta atenta, aprendi a cultivar empatia, compreendi a importância dos feedbacks construtivos e busco criar um ambiente de aprendizagem acolhedor.
Nenhuma dessas frases é mentira. Todas são intercambiáveis com as de qualquer outra pessoa que tenha cursado qualquer disciplina de licenciatura no Brasil.
O que aconteceu entre uma e outra?
Eu costumava achar que a diferença era de honestidade. Hoje acho que é de necessidade.
Em 2022 eu estava afundando, e aquele formulário foi o único lugar disponível para dizer. Não era um lugar bom. Uma professora leria, atribuiria um conceito e arquivaria. Mas era o que havia, e eu usei.
Em 2023 as coisas estavam mais calmas. E, quando não há urgência, o formulário volta a ser o que ele é: um campo a ser preenchido com o que se espera que esteja ali.
Isso me leva a uma conclusão desconfortável sobre o gênero.
A autoavaliação institucional não foi desenhada para produzir verdade. Foi desenhada para produzir registro. A prova é que ela funciona igual quando a pessoa está bem e quando está desmoronando, e em nenhum dos dois casos alguém age em função do que foi escrito.
Quando eu listei mortes, dívidas e travamento, ninguém me chamou para conversar. O semestre seguiu, o conceito foi lançado, e a vida continuou.
Ou seja: das duas vezes, o efeito institucional foi exatamente o mesmo.
E é por isso que quase todo mundo aprende, cedo, a preencher com a linguagem certa.
Não é cinismo. É economia de energia. Se o documento vai para a gaveta de qualquer jeito, escrever nele o que dói é gasto puro.
A única razão pela qual aquele texto de 2022 existe é que eu não tinha, naquele momento, mais nenhum lugar.
E é essa a informação de verdade sobre autoavaliação: ela só produz verdade quando a pessoa não tem outra saída.
O que quer dizer que, quando um formulário desses vem preenchido com sinceridade, a instituição deveria parar tudo e ler.
E é justamente aí que ela arquiva.


