Educação & Cuidado

Aprendi a escutar

Numa autoavaliação de disciplina, escrevi que desenvolvi habilidades de escuta atenta e que aprendi a cultivar a empatia.

Eu tinha trinta e oito anos.

Fazia mais de vinte que eu pregava, o que significa ficar semanalmente diante de gente que chega com alguma coisa quebrada e espera que você diga algo que sirva. Fazia mais de dez que eu trabalhava com assistência estudantil, recebendo adolescentes que sentam na cadeira e contam coisas que não contaram a mais ninguém.

E escrevi, num formulário de licenciatura, que naquele semestre eu havia aprendido a escutar.

Não é mentira. É pior: é a resposta que o formulário exige.

A pergunta era “quais saberes eu adquiri com esta disciplina”. Adquiri. O verbo já contém a resposta possível: alguma coisa que eu não tinha e passei a ter.

Não existe campo para escrever “reconheci, com nome técnico, uma coisa que faço há vinte anos sem saber chamar”.

E, no entanto, é essa a resposta verdadeira na maioria das vezes.

Um adulto que volta a estudar quase nunca aprende do zero. Ele chega com trinta ou quarenta anos de prática e vai encontrando, nas leituras, o vocabulário do que já faz. Descobre que aquilo que ele chamava de jeito de conversar com aluno se chama escuta ativa. Que o que ele fazia intuitivamente no púlpito tem nome em teoria da recepção.

Isso é uma coisa boa, e é uma das melhores coisas que a universidade dá a quem chega tarde. Nomear muda a prática, porque o que tem nome pode ser examinado, ensinado e corrigido.

Mas não é aquisição, e chamar de aquisição apaga a experiência de quem escreve.

E aí acontece o que aconteceu comigo: um homem com duas décadas de prática de escuta declara, por escrito, que aprendeu a escutar num semestre.

A instituição fica satisfeita, porque o formulário confirma que a disciplina funcionou.

O sujeito fica menor do que é.

E o que se perdeu ali era a única coisa valiosa que eu tinha a dizer sobre aquela disciplina: como é encontrar, aos trinta e oito anos, a teoria de uma coisa que você já fazia errado sem saber, e descobrir exatamente em que ponto você errava.

Isso caberia em três linhas.

Mas exigiria um formulário que perguntasse outra coisa.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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