A porta ficou de fora
No croqui de cenário que desenhei para um trabalho, há um elemento que eu descrevi e não desenhei.
Escrevi assim: nos lados, um possível sofá à esquerda e provavelmente uma porta à direita.
E depois expliquei a ausência: a porta como entrada e saída, ainda a se pensar, por isso não coloquei no desenho principal.
Ainda a se pensar.
Dos oito elementos daquela sala, a porta é o único que ficou fora do papel.
As estantes eu desenhei. A janela, com o raio e o vento, eu desenhei. A mesa com os livros abertos, o candelabro, a xícara, a garrafa de tinta com pena, o sofá com a luz dourada: tudo posicionado.
Só a saída ficou pendente.
Isso me interessa porque porta é, disparado, a imagem mais recorrente de tudo o que eu escrevi em quase vinte anos.
Sonhei com uma porta colossal que se abria e desaparecia atrás de mim, e escrevi que a verdadeira porta jamais se tranca.
Escrevi sobre um rapaz que voltou à igreja entrando pela mesmíssima porta por onde havia decidido sair, e concluí que a porta do recomeço nunca se tranca por fora.
Escrevi sobre um homem que bateu no meu portão às onze da noite, de luto, e disse que a teologia verdadeira não se faz só na madeira nobre dos bancos da igreja, mas no cimento frio de um portão.
Escrevi sobre um teatro abandonado cuja porta pesada cedeu com um rangido, e sobre um menino que desceu do palco e veio até mim perguntar por que eu estava escondido na última fileira.
Escrevi sobre um padeiro que vendia pela fresta de um portão gradeado que nunca abria.
Porta que abre, porta que não tranca, porta que não abre, porta pela qual se volta.
E quando eu tive que desenhar uma, deixei em branco.
Não vou fingir que sei o que isso significa, e não gosto de texto que interpreta o próprio autor. Pode ser apenas o que eu escrevi que era: uma decisão técnica adiada num rascunho.
Mas o rascunho está aqui, e o que ele mostra é uma sala completa, quente, iluminada em âmbar, cheia de livros e sem nenhuma saída marcada.
Um lugar bom demais para se querer sair.
Talvez seja por isso que eu não desenhei.


