A lista
O que Humphreys produziu, no fim das contas, foi uma lista.
Nomes e endereços de homens cuja exposição destruiria a vida deles. Ele nunca a divulgou, e não há registro de que alguém tenha sido prejudicado. Mas a lista existiu, e existiu porque um pesquisador teve acesso a uma coisa que aquelas pessoas só faziam sob a condição de que ninguém soubesse quem eram.
E é isso que faz aquele caso continuar servindo cinquenta anos depois, mesmo para quem nunca vai fazer sociologia da sexualidade.
Ele descreve uma situação que é bem mais comum do que parece: a de alguém que, por causa da própria posição, vê o que as pessoas escondem.
Eu conheço essa posição de três lugares diferentes.
Coordeno assistência estudantil num campus federal. Sei quais famílias não têm o que outras têm, porque elas precisam provar isso por escrito para receber auxílio. Tenho acesso a documentos que dizem a renda, a composição da casa e a situação de estudantes de dezesseis anos.
Sou ministro do Evangelho. Pessoas sentam na minha frente e contam coisas que não contaram a mais ninguém, e o fazem porque o lugar promete que aquilo fica ali.
E escrevo, publicamente, há vinte anos.
As três coisas juntas produzem uma tentação específica, e eu já cedi a ela.
Escrevi, este ano, um texto sobre um rapaz que voltou à igreja depois de anos afastado. Contei que ele pediu uma conversa reservada com o pastor, que confessou o que havia acontecido, que recebeu a absolvição e se ajoelhou para a oração.
Nomeei a igreja. Dei o período em que ele havia congregado. Contei que pregava. Contei em que cidade estava. E descrevi o dia em que o encontramos sentado no chão, na porta de um supermercado, com a cabeça entre os joelhos.
Qualquer pessoa daquela congregação sabe de quem se trata.
Aquilo é uma lista de uma pessoa só.
Não publiquei. Reescrevi o texto sem a igreja, sem os anos, sem o supermercado e sem a confissão, e ainda assim guardei, porque a decisão de publicar não é minha: é dele.
O que me interessa não é o meu acerto tardio. É que a tentação foi imediata e não me pareceu errada enquanto eu escrevia.
Porque era uma boa história. Porque tinha um final bonito. Porque eu estava emocionado. E porque, no momento em que escrevi, o que me ocupava era o texto, e não o homem.
Humphreys também estava fazendo um bom trabalho.
A regra que eu tirei disso é curta e não tem exceção que eu conheça.
O que alguém me contou por causa do lugar que eu ocupo não me pertence, mesmo quando é comovente, mesmo quando ajudaria outras pessoas, e mesmo quando eu tenho certeza de que ninguém vai identificar.
Ninguém vai identificar é uma frase que quem escreve diz para si mesmo.
Quem decide se foi identificado é a pessoa que abre a página e se reconhece.


