A África fora da história
Resumi a Filosofia da História de Hegel para uma disciplina. Escrevi sobre o Geist, sobre o espírito do mundo, sobre a marcha da liberdade, sobre totalidade.
Não escrevi uma linha sobre a parte que qualquer leitor brasileiro deveria encontrar primeiro.
Na introdução daquele livro, Hegel exclui a África da história.
Não é uma passagem lateral nem um deslize de época recuperável por contexto. É estrutura. Ele afirma que a África não é parte histórica do mundo, que não apresenta movimento nem desenvolvimento a exibir, e que por isso deve ser deixada de fora da consideração. Descreve os africanos em termos que são racistas de forma direta, e segue adiante.
Ele também trata as Américas como algo ainda fora da história propriamente dita, e organiza o resto num percurso que vai do mundo oriental, tratado como infância do espírito, até o mundo germânico, tratado como maturidade.
O livro inteiro é a história do espírito caminhando em direção à liberdade, e ele começa dizendo quem não entra na caminhada.
Eu sou coordenador adjunto do núcleo de estudos afro-brasileiros e indígenas do meu campus.
E resumi aquele livro sem mencionar isso.
O que me interessa não é a minha falha isolada, porque ela tem irmã.
Alguns meses depois, escrevendo um projeto de curso de dança para uma turma de sexto ano, coloquei numa mesma aula, com sessenta minutos de duração, o Hula havaiano e as danças africanas.
Um arquipélago específico e um continente inteiro, lado a lado, como itens equivalentes.
Escrevi sobre isso e chamei de guarda-chuva: quando não conheço uma coisa, uso a expressão genérica que apaga o que ela tem dentro.
Hegel fez a operação máxima dessa mesma família. Não colocou a África num item de lista. Colocou fora da lista.
E eu li aquilo e resumi como se fosse um tratado sobre a condição humana.
Há uma resposta comum e ela não me serve: dizer que era homem do seu tempo.
Não serve porque havia, no tempo dele, gente escrevendo contra a escravidão. E não serve, sobretudo, porque a questão não é absolver ou condenar Hegel. É saber o que fazer com um livro que continua sendo poderoso e que carrega isso dentro.
Eu não acho que se deva parar de ler.
A dialética hegeliana é uma das ferramentas mais úteis já produzidas para pensar processo histórico, e recusá-la em bloco empobrece quem recusa.
Mas há uma diferença enorme entre ler sabendo e ler sem saber.
Quem lê sabendo pode usar a ferramenta e perguntar por que ela precisou excluir um continente para funcionar. Essa pergunta é fecunda, e há tradição inteira de pensadores africanos e afro-diaspóricos que a fizeram e responderam.
Quem lê sem saber, como eu li, apenas repassa adiante a arquitetura, incluindo o buraco.
E aí acontece o que aconteceu no meu texto: o coordenador de um núcleo de estudos afro-brasileiros resumindo com admiração um livro construído sobre a exclusão da África, e não achando aquilo digno de nota.


