Nem tese nem antítese
Escrevi, resumindo Hegel, que a dialética dele funciona por tese, antítese e síntese.
Escrevi a mesma coisa noutro trabalho, um ano antes, e ali usei aquele esquema para formular uma ideia que eu considero das melhores que já tive.
Escrevi que conhecer é também retroceder. Que o caminho do ensino é uma espiral, um encontro de tese e antítese que forma uma síntese, e que a síntese logo vira tese de novo. E concluí: o que permite o progresso é o retrocesso.
Continuo achando isso verdadeiro.
Só que a tríade não é de Hegel.
Aquele esquema de três tempos, com esses nomes, vem de outra linhagem e foi popularizado por comentadores. Hegel praticamente não o usa, e especialistas corrigem essa atribuição há mais de um século sem nenhum sucesso, porque o esquema é fácil de ensinar e cabe num quadro-negro.
O que Hegel descreve é outra coisa, e é melhor para o que eu queria dizer.
O termo dele costuma ser traduzido por suprassunção ou superação, e significa três coisas ao mesmo tempo: negar, conservar e elevar. O momento seguinte não apaga o anterior. Carrega-o dentro, transformado.
Isso não é substituição. É acúmulo com mudança de nível.
E é exatamente o que eu venho fazendo há um ano sem saber o nome.
Passei este tempo relendo tudo o que escrevi desde 2006. E o que fiz não foi corrigir o passado. Deixei de pé o texto de 2013 que diz que o sofrimento é pedagogia obrigatória, ao lado do texto recente que chama aquilo de mentira cruel. Deixei o parágrafo em que eu chamava a dispersão dos alunos de defeito, ao lado daquele em que a chamo de parâmetro.
Nenhum dos dois foi apagado. Os dois continuam ali, e é a distância entre eles que informa alguma coisa.
Se eu tivesse apagado o primeiro, teria um arquivo mais bonito e nenhuma história.
Então fica o seguinte.
A minha frase estava certa e a atribuição estava errada, e essas duas coisas são independentes.
Descobrir que a fonte não sustenta o que eu disse não me obriga a jogar a ideia fora. Obriga a apresentá-la como minha, ou a procurar quem de fato a sustente, o que dá trabalho e é justamente o trabalho.
Isso vale para tudo o que eu escrevi.
Boa parte do que eu penso chegou até mim por caminhos que eu não conferi: coisas que ouvi de um pregador, li num livro de banca, absorvi de um curso, ou repeti porque soava bem.
Já encontrei, neste arquivo, uma dúzia de frases que eu usava como se fossem minhas e que tinham dono.
E encontrei também o contrário, que é o caso de hoje: uma ideia minha que eu havia doado a um alemão que não a escreveu.


