Educação & Cuidado

As condições materiais

Resumi para uma disciplina um texto sobre materialismo histórico, e apresentei o núcleo metodológico dele como desenvolvimento teórico do século dezenove.

O núcleo é este: para entender o que as pessoas pensam e fazem, olhe primeiro para as condições materiais em que vivem. Não são as ideias que produzem a vida; é a vida que produz as ideias.

Escrevi aquilo como quem relata a posição de terceiros.

E eu tinha, guardada numa pasta, a demonstração mais completa daquele princípio que eu poderia ter produzido.

Passei meses observando uma escola pública de tempo integral, e o que anotei foi isto.

Que a coordenadora precisou abrir quatro portas até encontrar uma sala vazia para uma conversa de vinte minutos.

Que o professor de Artes evitava a sala comum e usava a biblioteca, porque a sala boa vivia ocupada.

Que a disciplina exigia quarenta e cinco horas de regência e que o professor tinha dez para ceder.

Que o calendário da escola colocava a unidade de teatro depois do fim do meu estágio.

Que as famílias daqueles alunos tinham renda per capita abaixo de meio salário mínimo.

Que eu projetei cem horas de teatro para aquela turma e nada aconteceu, porque não havia folga em lugar nenhum.

E escrevi, num plano de aula sobre teatro de bonecos, que os alunos confeccionariam o boneco em vinte e cinco minutos, com cartolina e lápis de cor, porque cartolina é o que a escola tem.

Nada disso foi decidido por convicção de ninguém.

O professor não escolheu dar aula com slide projetado para copiar. Ele tinha cinquenta minutos, três turmas e uma turma que não sustenta quinze. O boneco não virou papel porque alguém preferiu papel. E aquelas crianças não concluíram que Artes é secundária por preguiça: concluíram dentro de uma vida em que o que não é imediatamente útil é a primeira coisa que se corta.

Passei este ano inteiro reencontrando esse padrão nos meus próprios textos, e escrevi sobre ele sem nunca usar o vocabulário que o descreve.

Escrevi que existem paredes feitas de frases que alguém disse sobre nós, e paredes de alvenaria, e que confundir as duas custa caro nas duas direções.

Escrevi que a limitação vira estrutura, e que três refletores de cem watts organizaram uma cena inteira porque não havia elipsoidais.

Escrevi sobre o quintal onde cresci, que era mangue e virou chão porque meus pais carregaram areia em balde durante anos.

E escrevi sobre a primeira biblioteca que vi na vida, atrás de uma porta de vidro, na casa do meu tio.

Não estou aderindo a um programa político, e este texto não é sobre isso.

Estou dizendo que o princípio metodológico é separável da conclusão política, e que ele funciona.

Quando eu quis explicar por que uma coisa não aconteceu numa escola, a resposta nunca esteve nas ideias de ninguém.

Esteve na quantidade de salas, de horas, de dinheiro e de gente disponível.

E é aí que eu deveria ter olhado primeiro, em vez de escrever que era uma característica comportamental a ser trabalhada.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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