Depois do diagnóstico
A crítica mais comum à Dialética do Esclarecimento é que ela não oferece saída.
O livro mostra como a razão que prometia libertar virou instrumento de dominação, como a cultura virou indústria, como o indivíduo foi sendo esvaziado. E termina sem programa. Sem proposta. Sem o que fazer na segunda-feira.
Isso costuma ser dito como acusação, e não é injusto.
Mas é o meu problema também, e é por isso que eu preciso escrever sobre ele.
Escrevo uma tese sobre racionalização e sistemas algorítmicos na educação. Descrevo uma jaula. Mostro como decisões que ninguém votou passaram a organizar o dia de estudantes e professores, e como o indicador foi tomando o lugar do objetivo.
E já ouvi, sobre esse tipo de trabalho, a pergunta certa: e daí?
Descrever uma jaula não liberta ninguém.
A resposta que a filosofia crítica costuma dar é que a lucidez já é alguma coisa, que compreender o mecanismo é o primeiro passo, que sem diagnóstico não há tratamento.
Está certo, e é insuficiente para quem trabalha onde eu trabalho.
Porque eu não sou só pesquisador. Coordeno assistência estudantil. Segunda-feira de manhã tem gente sentada na minha frente, e nenhuma delas está interessada na dialética do esclarecimento.
E o que eu aprendi ali, ao longo de anos, é que a resposta ao diagnóstico não é um contra-sistema.
É pequena, e é constrangedoramente pequena para quem gosta de teoria.
Um professor de Artes comprou uma caixa de sessenta lápis de cor, com o próprio salário, para um aluno cuja família não podia comprar. Isso não desmonta a razão instrumental. Aquele menino teve sessenta cores.
Eu projetei uma vez um curso de teatro para adolescentes em vulnerabilidade, e a primeira aula do cronograma era um café. Não era estratégia pedagógica. Era comida, no começo, para que eles soubessem que ali tinha para eles.
Um homem saiu do velório da própria tia, de madrugada, atravessou a cidade e bateu no meu portão às onze da noite, porque a minha avó havia morrido no mesmo dia.
Nenhum desses gestos é escalável. Nenhum vira política pública. Nenhum aparece em indicador.
E é justamente por isso que eles são a resposta: são exatamente aquilo que a razão instrumental não sabe processar, porque não produzem resultado mensurável e não se otimizam.
Não estou propondo isso como teoria. Seria ridículo responder a Adorno e Horkheimer com uma caixa de lápis de cor.
Estou dizendo o que eu vou escrever no fim da minha tese, quando chegar lá.
Que a jaula existe, que ela funciona como descrito, e que eu não sei desmontá-la.
E que, enquanto ninguém desmonta, existe uma coisa que continua funcionando dentro dela e que nenhum sistema conseguiu absorver: uma pessoa fazendo por outra alguma coisa que não rende nada.


