Foucault virado do avesso
Escrevi um projeto de pesquisa sobre distribuição de poder no instituto federal onde trabalho, e usei Michel Foucault como referencial teórico.
Reli e encontrei frases como estas.
Que as técnicas de si são incorporadas de maneira transversal no plano de desenvolvimento institucional.
Que o plano define as práticas e técnicas que moldam o comportamento dos estudantes, promovendo a autonomia e a responsabilidade de cada membro.
Que a subjetividade dos estudantes é moldada pelas interações educacionais, enquadrando-a dentro de parâmetros desejados que visam à formação de profissionais capacitados.
Que essas técnicas de poder são aplicadas para garantir a efetivação das políticas estabelecidas.
Tudo isso escrito em tom aprovador.
E aqui está o problema, e ele não é de estilo.
Governamentalidade, técnicas de si e subjetivação são ferramentas de análise crítica. Foucault as construiu para mostrar como o poder moderno funciona sem precisar de repressão visível: produzindo sujeitos que se governam sozinhos, na direção desejada, achando que estão exercendo liberdade.
O ponto dele sobre autonomia e responsabilidade é exatamente que essas palavras são modos de governar. Não são o oposto do poder. São a forma mais eficiente dele.
Quando eu escrevo que a instituição molda a subjetividade dos estudantes enquadrando-a em parâmetros desejados, e escrevo isso com aprovação, eu não estou aplicando Foucault.
Estou usando o vocabulário do diagnóstico para elogiar a doença.
É como resenhar um estudo epidemiológico dizendo que a transmissão do vírus foi eficiente e bem distribuída.
Levei um tempo para entender como isso aconteceu, porque não foi má-fé.
Aconteceu porque eu tinha dois vocabulários dentro da cabeça ao mesmo tempo, e eles se misturaram.
Um é o da crítica, que eu estava lendo para a disciplina. O outro é o do meu trabalho: planejamento estratégico, desenvolvimento institucional, excelência educacional, engajamento comunitário, cultura organizacional participativa.
O segundo é a língua que eu falo há vinte anos. É a língua dos documentos que eu escrevo, dos relatórios que eu assino e das reuniões de que participo.
E quando os dois se encontraram numa mesma página, o segundo venceu, porque é o que eu tenho automatizado.
Escrevi, noutro texto, que existe uma conclusão de prestígio que encaixa em qualquer autor.
Este é o caso inverso e mais grave: existe um vocabulário de gestão que digere qualquer crítica e a devolve como boa prática.
Ele absorve tudo. Diversidade vira indicador. Escuta vira instrumento de engajamento. Autonomia vira competência a ser desenvolvida. E até a análise do poder vira ferramenta de aprimoramento da governança.
O sistema não precisa refutar a crítica.
Basta contratá-la.


