Educação & Cuidado

Dois minutos de Romeu e Julieta

Em 2024 eu quis levar teatro para dentro do instituto onde trabalho.

O plano era um projeto de extensão com uma turma do curso técnico em Administração integrado ao ensino médio. Para isso existe um caminho: preencher o formulário de cadastro da ação, obter a anuência da chefia imediata, abrir processo administrativo, encaminhar ao gestor de extensão do campus, aguardar o parecer, enviar a documentação à coordenadoria de ações de extensão, aguardar de novo, e então executar.

Descrevi esse percurso inteiro no relatório, com nome de setor e sigla, porque foi o que me impediu.

E aí veio a greve.

Noventa dias, entre março e junho, servidores federais da educação parados. O projeto original morreu ali.

O que sobrou foi isto.

Uma professora de Artes do campus, a professora Zezé, que ainda não tinha voltado do movimento, ajudou mesmo assim a organizar alguma coisa menor.

Dez alunos do curso técnico em Manutenção de Sistemas Metroferroviários aceitaram participar.

O campus tem auditório e miniauditório. Não usamos nenhum dos dois, por respeito à greve e porque exigiriam mais recursos técnicos. Fomos para o laboratório de artes.

Três encontros. Vinte e dois de maio, cinco de junho, doze de junho.

No primeiro, jogos teatrais de aquecimento, atenção e interação, na linha do que Viola Spolin propõe.

No segundo, exercícios de improvisação.

No terceiro, uma cena de dois minutos de Romeu e Julieta.

Dois minutos.

Escrevo isso agora sem nenhum número, porque os números são a parte menos interessante do que aconteceu, e porque eu já os usei mal uma vez.

O que interessa é a lista das coisas que tiveram que dar errado antes.

Um curso de manutenção metroferroviária. Adolescentes que estão ali para aprender sistema de tração, metrologia e desenho técnico, e que estudam em tempo integral.

Uma instituição em greve.

Um processo de extensão que não pôde ser aberto.

Uma professora que estava parada e apareceu assim mesmo.

Um laboratório escolhido por ser o espaço que menos exigia.

E, no fim de tudo isso, dez adolescentes de escola técnica federal encenando Shakespeare por dois minutos numa tarde de junho.

Ninguém foi obrigado. Não valia nota. Não entrou no histórico de ninguém.

Anos atrás, escrevi um projeto de cinquenta aulas de teatro para uma escola pública, com caminhada pelo bairro, ensaios e apresentação de uma peça em dezembro. Nada aconteceu, porque não havia folga em lugar nenhum.

Desta vez o plano também caiu.

E três encontros aconteceram.

É pouco, e é a diferença entre zero e alguma coisa.

Escrevi, noutro texto, que a resposta ao diagnóstico das instituições não é um contra-sistema, e sim gestos pequenos que nenhum indicador captura.

Dois minutos de Romeu e Julieta, num laboratório de artes, durante uma greve, com uma professora que nem devia estar lá.

Não desmonta nada.

Aconteceu.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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