Eu estudei o relógio de ponto
Em 2020 eu defendi um mestrado em Gestão Pública.
O objeto era o módulo de registro eletrônico de frequência implantado no sistema de recursos humanos do instituto federal onde trabalho. O ponto eletrônico dos servidores.
A pergunta era como os fatores psicossociais influenciavam a intenção de uso daquele sistema. Apliquei um questionário a 446 servidores, usei modelagem de equações estruturais e testei onze hipóteses sobre atitude, autoeficácia e ansiedade.
Hoje eu escrevo um doutorado sobre racionalização e sistemas algorítmicos na educação.
Levei seis anos para perceber que é o mesmo assunto, e que eu mudei de lado.
O relógio de ponto é a racionalização na forma mais pura que existe.
Ele converte trabalho em presença, e presença em registro. Não mede o que foi feito, nem como, nem para quem. Mede se a pessoa estava lá, e a que horas.
É exatamente aquilo que eu venho descrevendo em textos recentes: quando um sistema não consegue medir o que importa, ele passa a medir o que consegue, e depois esquece que aquilo era um substituto.
E eu estudei aquele sistema de dentro de um referencial que se chama aceitação de tecnologia.
Os dois modelos que usei, o de Davis e o de Venkatesh e colegas, são excelentes e são amplamente validados. Também são, por construção, modelos de adoção. Eles existem para prever e aumentar a aceitação de uma tecnologia por seus usuários finais.
O vocabulário diz tudo. Fala-se em resistência dos usuários, em estratégias que promovam a adesão, em campanhas de conscientização, em intervenções para reduzir a ansiedade e melhorar a atitude.
Nesse enquadramento, a relutância do servidor é um problema a ser gerido.
Não é uma informação sobre o sistema.
Escrevi, na conclusão daquele trabalho, que a administração pública deve investir em treinamento e comunicação para aumentar a percepção de utilidade e reduzir a percepção de esforço.
Está tecnicamente correto e responde à pergunta que eu fiz.
O que eu não perguntei, em nenhum momento das mais de cem páginas, foi se aquele sistema deveria existir.
Nem o que ele faz com a relação entre um servidor e o próprio trabalho quando a jornada passa a ser algo que se comprova, e não algo que se cumpre.
Nem por que uma instituição de ensino, que avalia professores por produção, aula e orientação, precisa também saber a que horas cada um passou pela porta.
Essas perguntas estavam fora do modelo, e eu não notei que estavam fora, porque o modelo era a lente.
Não me arrependo daquele mestrado e não acho que o trabalho seja ruim. Ele responde bem ao que se propôs, e o dado é honesto, inclusive quando uma das hipóteses não se confirma.
Mas hoje eu sei o que aconteceu.
Passei dois anos estudando um instrumento de medição de presença, usando um referencial teórico desenhado para facilitar a adesão a instrumentos de medição.
E seis anos depois estou escrevendo uma tese sobre o que os instrumentos de medição fazem com as pessoas.
Não é mudança de assunto.
É a mesma sala, vista da outra cadeira.


