• Artes & Narrativas

    As perdas rimam

    Tenho habitado a convicção de que a sinfonia da vida só atinge a sua plenitude porque não hesita em acolher tanto os acordes dissonantes quanto os suaves. É o entrelaçar dessas notas opostas que confere gravidade ao choro de quem sofre e leveza ao riso de quem celebra. Aceitar a autoria dessa composição implica reconhecer que não nos é dado o luxo de escolher apenas os trechos fáceis. Hoje, enquanto a minha pauta toca acordes irremediavelmente tristes, a memória reverbera em uma simetria impressionante. A notícia dolorosa me alcançou pela voz da minha esposa, ao telefone, enquanto eu estava na minha sala de trabalho. Quando a minha outra avó faleceu,…

  • Artes & Narrativas

    As revelações

    Lembro do Escort XR3 vermelho do meu tio Aroldo. Era fantástico. Nesse eu nunca entrei, mas imaginava aqueles carros de corrida, estilo Ferrari. Nem sabia que Ferrari era uma marca de carro na época. Meu tio Aroldo era ourives, morava em Macaé, no Rio de Janeiro. Havia se casado com uma ex-irmã de caridade, a Matilde. Quando vinha a Vitória, passava lá na Grande Vitória. Lembro que em uma dessas visitas o carro ficou estacionado do lado de fora do quintal. A rua era estreita, mas não havia problema, pois raramente passaria um carro por ali naquela época. Ele entrou com aquela roupa bacana, camisa polo, que eu não sabia…