Um fruto deixado no escuro
A destruição de uma vida é de uma facilidade aterradora e, simultaneamente, de uma devastação absoluta. Basta conceder a primeira fresta para que a falha se infiltre, permitindo que as suas raízes asfixiem a terra fértil do coração. O pecado é uma praga silenciosa que prospera nas rachaduras da alma, expandindo o seu território com lentidão e frieza. E, por mais que eu lute, sinto essa presença muito mais perto do que a minha vaidade gostaria de admitir.
Existe um pavor paralisante na decisão de trazer isso à luz. Expor quem somos nos bastidores é despir a alma e apresentar as feridas que tentamos maquiar. A confissão é um ato de violência contra o ego, pois exige uma honestidade brutal não apenas perante os outros, mas diante do tribunal da nossa própria consciência.
Ainda assim, a vulnerabilidade é o único caminho para o renascimento. É permitir que Deus, e, na Sua graça, alguém de nossa estrita confiança, veja a sujeira que tentávamos varrer para debaixo do tapete. A recusa em fazer isso deflagra uma necrose silenciosa: é o processo invisível de um fruto deixado no escuro, apodrecendo de dentro para fora enquanto ninguém olha.
Diante dessa decomposição, a própria identidade fratura-se. Quem sou eu, afinal? Folheio as páginas da minha biografia em busca de um norte, tentando decifrar a trama confusa dos meus dias, investigando o que me arrastou para escolhas tão tortas e para o peso dessa culpa. É como procurar estrelas num céu nublado: pequenos pontos de luz piscam por um segundo, apenas para serem engolidos pela neblina.
A ruína não é um evento instantâneo. É uma erosão lenta, metódica e constante. Mas mesmo em pedaços, resta saber que o Criador deseja a minha restauração.
Resta-me, então, a súplica:
Senhor, não me descartes. Mesmo que a minha estrutura esteja em ruínas, mesmo que eu precise sacrificar o pouco que restou do meu orgulho, não permitas que a minha história termine em destroços. Que a minha vida, triturada e reduzida ao pó, converta-se em barro fresco nas Tuas mãos. Que dessas cinzas, Tu possas erguer um vaso novo para a Tua glória.


