O cientista e a cobaia
Há uma máxima que circula nas rodas de conversa e de negócios: não aceite conselhos de pessoas falidas. Para compreender a profundidade dessa advertência, é preciso ir além do clichê e desmontar a própria linguagem do enunciado, começando pela palavra mais incisiva: o não.
Neste contexto, o não é uma barreira. Quando aceitamos algo, seja um presente, uma ideia ou uma direção, fazemos um movimento de abrir os braços. E ao fazê-lo abandonamos a vigilância ativa e entramos em uma zona de recepção. Portanto, não aceitar é recusar a permeabilidade, é negar-se a ser recipiente vazio para as ideias alheias.
Aplicando essa lógica à figura da pessoa falida, e entendendo a falência aqui em qualquer área da vida, seja financeira, emocional ou estrutural, a advertência torna-se clara. Conselhos são vetores de força: alteram o nosso plano de pensamento e desviam o nosso rumo. A passividade consiste em permitir que a mente de quem está no comando do próprio naufrágio assuma o leme do nosso barco.
E aqui é fundamental purificar a palavra sucesso. Não falo do sucesso oco que a vitrine das redes sociais tenta impor, mas da raiz do termo: a sucessão de acertos que leva a um objetivo.
Dizer não aceite conselhos de pessoas falidas não é apelo à arrogância nem desprezo pelo erro alheio. É alerta contra a osmose intelectual. Há, inegavelmente, lições valiosíssimas a extrair das ruínas de quem fracassou, mas a captura desse aprendizado não pode ocorrer por aceitação cega. Exige uma escuta armada de discernimento.
O fracasso do outro é um excelente laboratório, desde que você seja o cientista observador, e não a cobaia.
É necessário exercer uma curadoria implacável: olhar para a falência alheia, filtrar o que serve como alerta de perigo e descartar as justificativas que normalizam a derrota.
Aprender com o erro do outro é sabedoria. Entregar o leme a quem se acomodou nele é abrir mão da própria rota.


