Cheiro de carro novo
Nos anos 1990, uma pessoa de baixa renda conquistar um carro zero quilômetro não era comum. Nos bairros periféricos se viam poucos carros, muito raros, e certamente nenhum zero.
A notícia de que meu tio havia comprado um carro na concessionária foi recebida com alegria. Parecia que todos nós havíamos melhorado financeiramente, mesmo sem ver o carro. Ele já tinha um Corcel II, se não me engano azul. Agora havia trocado por um Escort Hobby da Ford.
Vi o carro pela primeira vez já na garagem, os bancos embalados no plástico transparente. O cheiro de carro novo era cheiro de ambiente que nunca havíamos frequentado.
A concessionária presenteou minha tia com um buquê de flores, talvez por ela ser a pessoa que decidiu a compra. Sem o aval da esposa, dificilmente um homem compraria um carro zero. Na época eu achei muita vantagem. Pensei: nossa, você compra um carro e ganha um buquê de flores. Onde compraria alguma coisa e ganharia outra?
Nós, ainda crianças, andávamos pelo Estrelinha e pela Grande Vitória a pé. Meu tio comprava pão de carro. Ia ao supermercado de carro. Não andava pelo bairro a pé, o carro era o seu meio de se locomover, também a curtas distâncias.
O asfalto da rua principal do bairro Grande Vitória parecia maior naqueles dias. Talvez fosse a perspectiva da infância, ou talvez fosse o Corcel II do Tio Mário. Quando a porta batia, com aquele som metálico e seco, o mundo lá fora ficava mudo. Lembro de uma vez ele ter me levado à rua principal, tanto no Corcel quanto no Escort.
Em Gurigica, o Tio José Luiz tinha um Escort XR3 azul-escuro com teto solar, que parecia metálico. Ele morava em São Mateus. Quando vinha a Vitória, por alguma coincidência eu estava na casa da minha avó Arlete, na maioria das vezes em época de férias escolares.
Um dia ele saiu e perguntou se eu queria ir. Disse que sim. Fomos. Passamos pelo bairro República. O sol estava escaldante, a luz vinha pelo teto solar, mas havia um contraste, o ar-condicionado do carro. O carro era novo. Sentia uma sensação de bem-estar e de mal-estar, justamente o contraste do sol e do ar-condicionado.
Sentia que vivenciava o momento, mas que não era o meu momento.


