Três refletores
No projeto de iluminação que entreguei, escrevi uma frase que serve para quase tudo:
É necessário estabelecer uma diferença entre o que é proposto como ideal e o que é possível. Nem sempre o ideal para iluminação será possível para realização.
O ideal, ali, seriam projetores elipsoidais, que produzem foco definido e recorte limpo.
O possível eram três refletores improvisados de cem watts, extensões elétricas puxadas até onde desse, e uma base montada para que alguém pudesse acender e apagar na hora certa.
E foi com isso que projetei a cena.
O que me interessa, relendo, não é a precariedade. É o que eu fiz com ela.
Não escrevi um projeto de elipsoidais e depois lamentei não ter. Escrevi um projeto de três refletores, e organizei a cena inteira em torno desse número.
Três momentos, três posições, três funções. Luz frontal para o corpo inteiro, luz lateral para a expressão, luz zenital para o declínio. Um refletor fixo acima do ator, dois móveis para reposicionar durante a cena. E, no fim, os três apontados juntos para o mesmo ponto, produzindo, na soma, a intensidade que nenhum deles daria sozinho.
A limitação virou a estrutura.
Se houvesse doze refletores, a cena teria sido outra, e provavelmente pior, porque não haveria motivo para dividir em três nem para reunir tudo no fim.
Eu aprendi isso antes de saber que era um princípio.
Cresci numa casa onde cada coisa que chegava era resultado de esforço familiar, num quintal que meus pais fizeram carregando areia em balde porque o terreno era mangue. Aprendi que o que se tem é o que se tem, e que o trabalho consiste em descobrir o que dá para fazer com aquilo.
É a mesma operação de um professor de escola pública que planeja três blocos de quinze minutos porque a turma não sustenta cinquenta. É a mesma operação de um professor de Artes que evita a sala convencional e leva os alunos para a biblioteca porque a sala boa está ocupada.
Não é conformismo. Conformismo é aceitar a falta e reduzir a ambição.
Isso aqui é outra coisa: é usar a falta como forma.
E, no fim das contas, é o que faz a diferença entre um projeto que acontece e um projeto que fica na gaveta.
Eu sei bem disso. No mesmo ano, escrevi um plano de cinquenta aulas de teatro para uma escola que não tinha uma sala vazia, e ele não aconteceu.
O projeto de iluminação, com três lâmpadas de cem watts e um fio de extensão, era executável.


