Vinte e cinco minutos
Em 2022 assisti a uma entrevista com um mamulengueiro e escrevi uma resenha. Aprendi ali que o mamulengo não se aprendia em oficina, que a transmissão era oral e prática, que se brincava a noite inteira e não duas horas, e que o mestre dizia precisar de um filho para tomar conta da arte quando partisse.
E escrevi, com todas as letras, que a oficina toma o lugar da naturalidade transmissiva, entra numa matriz curricular e deixa a arte um pouco enlatada.
Em 2023 eu escrevi um plano de aula sobre teatro de bonecos populares.
Quatro aulas de sessenta minutos.
Na aula dois, os alunos confeccionam bonecos. Tempo previsto para a confecção: vinte e cinco minutos. Materiais: papel, cartolina e lápis de cor. Avaliação: confecção de um boneco de papel a partir de referências culturais locais.
Vinte e cinco minutos e uma cartolina.
Antes havia reconhecido que a oficina enlata, eu escrevi a lata.
E o mais honesto que eu posso fazer é reconhecer que provavelmente escreveria de novo, porque cada decisão daquele plano tem uma justificativa razoável.
Sessenta minutos é o que a aula dura. Cartolina é o que a escola tem. Vinte e cinco minutos é o que sobra depois da introdução, da exposição e da conclusão que o formato de plano de aula exige. E o boneco precisa ficar pronto na mesma aula, porque na semana seguinte metade da turma faltou e a outra metade perdeu o que fez.
Ninguém está errado. E o resultado é um mamulengo de cartolina.
O que me incomoda não é a redução em si. É que o plano não diz que é redução.
Ele apresenta quatro aulas como se fossem uma introdução suficiente a uma arte que se aprende em anos, com madeira, ao lado de alguém que sabe, sem hora para acabar. O aluno sai de lá achando que viu mamulengo.
Havia uma frase possível, e ela custava dois minutos da aula um.
Bastava dizer à turma: o que a gente vai fazer aqui é uma versão pequena. A coisa de verdade é de madeira, dura a noite inteira, e quem faz aprendeu com o pai. Vocês vão fazer de cartolina porque é o que dá para fazer numa escola, e isso não é a mesma coisa.
Uma tradição que se sabe traduzida ainda pode voltar para casa um dia.
Eu escrevi essa frase em 2022, sobre a oficina do mestre.
E não a coloquei no meu próprio plano de aula, um ano depois.


