Educação & Cuidado

Um continente numa aula

Escrevi um projeto de curso de dança para uma turma de sexto ano. Dez aulas, uma por semana, de junho a agosto.

A aula quatro chamava-se “danças folclóricas do mundo”. E o conteúdo previsto era este: aprendizado de dois movimentos típicos e dos aspectos culturais que envolvem a Hula e as danças africanas.

Hula e danças africanas.

Uma coisa é a dança de um arquipélago específico, o Havaí, com nome próprio e tradição rastreável.

A outra é um continente com cinquenta e quatro países.

Coloquei as duas lado a lado, como se fossem itens equivalentes de uma lista, e reservei sessenta minutos para as duas.

Sou coordenador adjunto do núcleo de estudos afro-brasileiros e indígenas do meu campus. É parte do meu trabalho, todos os dias, sustentar que a África não é um lugar só, que não existe uma cultura africana no singular, e que tratar assim é a operação exata que a colonização fez.

E escrevi “danças africanas” num plano de aula sem piscar.

Não escrevo isso para me punir. Escrevo porque o mecanismo me interessa e ele é mais comum do que a má-fé.

O que aconteceu ali é simples: eu precisava preencher uma linha de conteúdo num formulário de projeto de curso, e a linha tinha um tamanho. Ela comportava uma expressão curta. E “danças africanas” é curta.

O formato pediu generalidade e eu entreguei generalidade.

O mais interessante é que, no mesmo período, eu fiz a coisa certa noutro documento.

Precisando escolher um conteúdo para uma regência de teatro, escolhi o Congo. Não escolhi “cultura afro-brasileira”, nem “manifestações populares”. Escolhi uma forma específica, com nome, com instrumento, com território: a casaca, o tambor, o cortejo, as comunidades do Espírito Santo.

Escolhi assim porque era o que eu conhecia de verdade.

E é essa a diferença inteira.

Quando eu escrevo sobre o que conheço, o nome aparece sozinho, com o instrumento junto e a cidade junto. Quando eu escrevo sobre o que não conheço, aparece o guarda-chuva: danças africanas, culturas populares, manifestações folclóricas.

O guarda-chuva não é neutro. Ele informa ao aluno que aquilo ali não tem nome, e que não vale a pena ter.

E o pior é que a criança aprende exatamente isso. Ela sai da aula sabendo que ballet tem escola, técnica, vocabulário e séculos de história, e que a África tem movimentos típicos.

O conserto não é ambicioso. É trocar uma expressão por outra.

Em vez de danças africanas, escolher uma: o sabar senegalês, o gumboot sul-africano, o que for. Uma só, com nome, com país, com contexto, com quem dança.

Dá o mesmo trabalho e ensina o contrário.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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