O bloco
Encontrei um projeto de pesquisa que escrevi e em que a mesma citação aparece, palavra por palavra, quatro vezes.
Não é uma citação. É um bloco de dezesseis autores entre parênteses:
Aristóteles, Comte-Sponville, Dewey, Foucault, Gadamer, Habermas, Jaeger, Kant, MacIntyre, Nietzsche, Platão em duas edições, Rawls, Rousseau, Sartre, Singer e Valls.
Dezesseis nomes, colados no fim de um parágrafo, e depois no fim de outro, e depois de outro.
E há uma versão reduzida do mesmo bloco, com quatro nomes, que aparece umas doze vezes no documento.
Nenhuma dessas citações remete a uma página. Nenhuma sustenta uma afirmação específica. Nenhuma poderia ser conferida, porque não há o que conferir: são dezesseis autores atestando, coletivamente, que a ética é importante para a formação do cidadão.
Aristóteles e Nietzsche discordam frontalmente sobre ética. Kant e Singer discordam. MacIntyre escreveu um livro inteiro contra a tradição em que Rawls está.
Eu os enfileirei como se assinassem juntos um abaixo-assinado.
Escrevi, num outro texto, que existe um tipo de virtuosismo técnico que serve para encobrir a falta de conteúdo. Disse que o plano-sequência de vinte minutos pode ocupar tanto o espectador com a proeza que ele não pergunta se aquelas cenas tinham o que dizer.
E disse, no fim daquele texto, que na universidade o ornamento tem outro nome e outro prestígio: chama-se aparato.
Escrevi aquilo em teoria.
E depois encontrei, nos meus próprios arquivos, o espécime.
O que aquele bloco de dezesseis nomes faz é exatamente o que o plano-sequência faz. Ele produz a impressão de densidade sem afirmar nada que possa ser contestado. Ninguém discute com dezesseis autores ao mesmo tempo. Não há por onde entrar.
E é por isso que ele funciona, e é por isso que todo mundo usa.
Um parágrafo que termina com quatro sobrenomes entre parênteses parece fundamentado. Um parágrafo que termina sem citação nenhuma parece opinião. O revisor, o orientador e a banca reagem melhor ao primeiro, mesmo quando o segundo diz mais.
Aprende-se isso rápido, e aprende-se sem que ninguém ensine.
A pergunta que eu deveria ter feito ao escrever aquele projeto é simples e vale para qualquer parágrafo acadêmico:
Se eu tirar os parênteses, sobra uma afirmação?
Se sobrar, a citação estava ajudando a sustentar alguma coisa.
Se não sobrar, o parágrafo era o parêntese.


