Artes & Narrativas

Deixar o outro ter razão

A coisa mais corajosa que Diderot fez em O Sobrinho de Rameau não foi criticar a sociedade francesa.

Foi perder a discussão.

O diálogo tem dois participantes. De um lado, o filósofo, que representa o próprio autor: sensato, moral, defensor da virtude. Do outro, o sobrinho: parasita, bajulador profissional, alguém que come na mesa dos ricos e paga divertindo-os, e que admite tudo isso sem constrangimento.

O filósofo deveria vencer. É ele quem tem razão pelas regras que qualquer leitor traz de casa.

E não vence.

O sobrinho é mais vivo, mais engraçado, mais honesto sobre a própria degradação, e várias vezes mais lúcido a respeito de como o mundo funciona de fato. Diderot deu a ele as melhores falas, e é por isso que o livro atravessou dois séculos e meio.

Reli o meu arquivo com essa lente e encontrei uma coisa incômoda.

Nos meus textos, quem me feriu nunca tem uma boa fala.

Escrevi sobre um rapaz que me levou a uma igreja depois de dizer que a minha roupa era brega e o meu cabelo não estava bom. Ele aparece no texto como instrumento da minha humilhação, e não diz mais nada.

Escrevi sobre um chefe que ridicularizava subordinados na frente dos outros. Ele não tem argumento.

Escrevi sobre uma coordenadora cujo rosto se contorceu ao descobrir que eu havia passado em terceiro lugar em um processo seletivo de pós-graduação. Ela não fala.

Escrevi sobre um professor que me abordou com hostilidade num corredor de escola. Ele ficou em silêncio alguns segundos e saiu, e é assim que ele existe no meu texto: como alguém que se cala.

Escrevi contra uma chapa numa eleição de convenção eclesiástica, e nenhum dos argumentos deles aparece.

Em todos os casos eu tinha razão, e continuo achando que tinha.

Mas ter razão e escrever bem são coisas diferentes, e Diderot sabia disso melhor do que eu.

Um texto em que o adversário não tem defesa não é um texto: é um comunicado. O leitor percebe imediatamente que a discussão foi arranjada, e por isso não confia nem no lado que ganhou.

E há uma razão prática, que não é generosidade.

Quando você escreve a melhor versão do argumento contrário e ainda assim ele perde, a sua posição fica de pé. Quando você escreve a pior versão e ela perde, você não provou nada, e todo mundo sabe.

Não sei se sou capaz de fazer isso com o rapaz de 2001. Talvez não seja mesmo, e talvez esse seja o limite honesto de quem escreve a partir da própria ferida.

Mas registro que existe um patamar acima, e que ele consiste em dar ao outro a fala que eu não quero ouvir.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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