Um pastor que tem consciência por mim
Kant explica por que é tão confortável permanecer na menoridade, e dá três exemplos.
Se eu tenho um livro que entende por mim, um diretor espiritual que tem consciência por mim, e um médico que decide a minha dieta por mim, então não preciso me esforçar. Não preciso pensar, contanto que possa pagar. Outros se encarregarão do negócio incômodo.
O segundo exemplo é o meu ofício.
Prego há mais de vinte anos. Todo domingo, alguém senta num banco e recebe de mim uma leitura do mundo já organizada. E boa parte do que se espera de um pastor é exatamente isso: que ele resolva a questão, que diga o que fazer, que dê a resposta.
Kant chama isso de tutela.
E ele não está errado.
Eu vi acontecer, e vi de dentro. Já entreguei resposta pronta quando devia ter feito uma pergunta. Já usei a autoridade do lugar para encerrar uma discussão que não me convinha. E já preguei coisas que eu tinha recebido prontas e nunca havia examinado, com a segurança de quem repete.
Guardo um livro em casa com a minha assinatura na folha de rosto e a data de julho de 2011. É um livro de vitórias e promessas, e escrevi sobre ele que era um caminho de certezas onde a dúvida mal tinha espaço para respirar.
Eu era o leitor daquele livro antes de ser o pastor de alguém.
O que Kant descreve é uma cadeia: o tutelado prefere não pensar, o tutor prefere que ele não pense, e o arranjo agrada aos dois. Ele diz que os tutores, depois de embrutecerem o gado, mostram o perigo que há em tentar caminhar sozinho.
E é aqui que eu preciso dizer o que penso, e não o que a citação sugere.
Há um tipo de cuidado que não é tutela.
Quando alguém chega destruído e recebe uma palavra que sustenta, isso não é impedir que a pessoa pense. É oferecer chão a quem não tem, para que um dia ela possa pensar. Escrevi, noutro lugar, que a graça não opera no clube dos autossuficientes, e continuo achando isso.
A diferença entre cuidado e tutela não está no gesto. Está no que acontece depois.
Se, com o tempo, a pessoa passa a discordar de mim em público, a formular as próprias perguntas e a não precisar da minha confirmação, então eu cuidei.
Se, com o tempo, ela depende cada vez mais de me perguntar antes de decidir, então eu tutelei, mesmo tendo sido gentil o tempo inteiro.
O teste é simples e é impiedoso: um pastor honesto é aquele cuja congregação vai precisando menos dele.
Não é o que a estrutura recompensa. A estrutura recompensa quem é procurado, consultado e considerado indispensável.
E é por isso que a acusação de Kant, que a minha tradição costuma tratar como coisa de iluminista contra a igreja, é a advertência mais útil que eu recebi sobre o meu próprio trabalho.
Ela não me pede para deixar de pregar.
Pede para eu reparar quantas pessoas, depois de vinte anos, ainda me perguntam o que devem achar.


