Construção não quer dizer invenção
Escrevi, resumindo um livro de filosofia da ciência, que a objetividade é uma construção social, moldada por convenções culturais e linguísticas, e que ela é sempre relativa a um contexto específico.
Está fiel ao autor. E, solta desse jeito, é uma frase perigosa.
Porque em 1995, quando aquele livro chegou ao Brasil, dizer que a objetividade é construída servia para uma coisa: lembrar que cientistas são gente, que trabalham dentro de instituições, com financiamento, disputa e vocabulário herdado, e que a ciência não desce pronta do céu.
Isso continua verdadeiro e continua necessário.
Só que hoje a mesma frase circula com outra função. Ela virou a chave universal para descartar qualquer resultado incômodo. É construção social, portanto é ponto de vista, portanto o meu vale igual.
E usa-se em todos os lados. Quem não gosta de um dado epidemiológico, de uma medição climática, de uma apuração eleitoral ou de um laudo pericial encontra ali um argumento de aparência sofisticada para não olhar.
Vale a pena, então, dizer o que a tese autoriza e o que ela não autoriza.
A tese diz que não existe observação neutra. Que quem observa leva teorias, palavras e interesses para dentro do laboratório, e que o que aparece como fato depende disso.
O que ela não diz é que todas as construções são igualmente boas.
E é fácil mostrar por quê. Se todas fossem, a ciência não teria nenhuma história, porque não haveria motivo para trocar uma teoria por outra. E ela troca o tempo todo, às vezes contra a vontade de quem estava confortável.
Uma construção pode ser melhor que outra. Ela prevê mais, explica mais, resiste a mais tentativas de derrubá-la, e permite fazer coisas que a anterior não permitia. O avião voa. O antibiótico funciona.
Dizer que o conhecimento é construído é uma afirmação sobre o processo. Não é uma afirmação sobre a qualidade do produto.
Confundir as duas é o erro que transforma epistemologia em desculpa.
Eu escrevi aquele resumo sem essa ressalva, e ela custaria uma linha.
E, no meu caso, há uma razão a mais para escrevê-la.
Pesquiso o que os sistemas algorítmicos fazem com a experiência de estudar e de ensinar. É um campo em que a crítica é necessária, porque as decisões que hoje organizam a vida escolar vêm embutidas em ferramentas que ninguém votou.
Mas essa crítica só tem força se for feita por alguém que ainda acredita que existe diferença entre uma afirmação sustentada e uma afirmação inventada.
Quem diz que tudo é construção não critica ninguém.
Fica apenas com a última coisa que sobra quando o critério acaba: a preferência.


