As parteiras
Na Viena da década de 1840, o hospital geral tinha duas alas de maternidade.
Na primeira, atendida por médicos e estudantes de medicina, a mortalidade por febre puerperal chegava a mais de dez por cento.
Na segunda, atendida por parteiras, ficava em torno de quatro.
Guarde a segunda frase, porque ela costuma passar em branco quando a história é contada.
O setor com menos formação, menos prestígio, menos salário e nenhum acesso à sala de autópsia tinha um quarto dos mortos do setor prestigiado.
E aquilo durou anos sem que ninguém investigasse.
Não é que os dados estivessem escondidos. Estavam no registro do hospital, e as próprias parturientes conheciam a diferença: imploravam para ser levadas à ala das parteiras, e algumas preferiam dar à luz na rua.
As pacientes sabiam antes dos médicos.
O que faltou não foi informação. Faltou a disposição de fazer a pergunta que a informação exigia: por que o pessoal menos qualificado está tendo resultado melhor?
Essa pergunta é humilhante, e é por isso que ela não foi feita.
Reli isso pensando no meu trabalho.
Coordeno um setor num instituto federal, com equipe multidisciplinar. E já vi, mais de uma vez, o mesmo desenho: a informação que resolveria um problema está com quem tem menos posição para dizer, e a estrutura não tem canal para escutar.
O terceirizado da limpeza sabe qual banheiro os alunos evitam e por quê. O vigilante do portão sabe quem chega chorando e quem não entra. A servidora que atende no balcão sabe quais famílias desistiram de pedir auxílio porque a exigência de documento é impossível para elas.
Nenhum desses saberes entra em relatório, porque relatório é escrito por quem tem cargo.
E escrevi, num diário de estágio, uma frase que agora me parece do mesmo tipo. Anotei, sobre uma escola, que parecia haver certa cordialidade recíproca entre professores e técnicos administrativos.
Reparei na cordialidade. Não perguntei quem decidia.
A lição de Viena não é sobre higiene.
É que instituições hierárquicas produzem, como efeito colateral do próprio desenho, uma incapacidade estrutural de aprender com quem está embaixo.
E o preço disso, naquele caso, foi contado em mulheres mortas durante vinte anos, num prédio onde a resposta já estava funcionando do outro lado do corredor.


