O hábito
Hume tem um argumento que, quando entendido, não sai mais da cabeça.
Ele pergunta por que acreditamos que o sol vai nascer amanhã. Ou que o pão vai nos alimentar. Ou que o fogo queima.
A resposta óbvia é que a experiência ensinou.
E ele mostra que a experiência não ensina isso. A experiência mostra o que aconteceu até agora. Para ir de aconteceu sempre até acontecerá de novo, é preciso supor que o futuro se parecerá com o passado, e essa suposição não pode ser provada sem se apoiar em si mesma.
Não observamos causa. Observamos uma coisa seguida de outra, repetidamente. A ligação entre elas é acrescentada pela mente.
E o que produz essa adição não é raciocínio. É o costume.
A repetição abre um sulco, e o pensamento passa a correr por ali. Depois de muitas vezes, a expectativa se forma sozinha, sem que ninguém a tenha deduzido.
Levei esse argumento para o meu ofício e ele ficou desconfortável.
Prego há mais de vinte anos. Isso significa repetir, semanalmente, um vocabulário fechado, diante de pessoas que confiam em quem fala.
Graça. Redenção. Arrependimento. Unção. Glória.
E significa também repetir estruturas: a maneira de abrir, o jeito de encadear, o tipo de exemplo que funciona, a entonação que a congregação reconhece.
Se Hume estiver certo, e eu acho que está, a repetição não apenas transmite convicção. Ela produz convicção, e produz nos dois lados do púlpito.
A pessoa que ouve a mesma coisa duzentas vezes passa a achar aquilo evidente, e não porque examinou. Porque o sulco está aberto.
E quem fala está na mesma condição, com um agravante: ele diz aquilo em voz alta, com autoridade, e recebe confirmação toda semana.
Descobri isso por outro caminho, revisando vinte anos de textos meus.
Contei as palavras que eu repetia sem perceber. Vinte e quatro âncoras, vinte e sete usos de brutal, mais de vinte imagens de força gravitacional. Cada uma delas foi escolha na primeira vez, e depois virou sulco.
E encontrei uma conclusão que eu havia aplicado a três filósofos incompatíveis entre si, como se os três dissessem a mesma coisa. Não diziam. A conclusão era minha, repetida até parecer leitura.
Se isso acontece com quem escreve sozinho e revisa, imagine com quem fala de improviso, sob emoção, para gente que concorda.
Não é argumento contra pregar.
É argumento a favor de uma pergunta que eu passei a fazer antes de subir: o que eu vou dizer hoje eu examinei alguma vez, ou apenas repeti tantas vezes que passou a parecer óbvio?
As duas coisas soam exatamente iguais de dentro.
E é justamente esse o problema que Hume descreveu.


