O que a minha avó sabia
Boaventura de Sousa Santos chama de pensamento abissal a linha que separa o que conta como conhecimento do que sequer entra na disputa.
O ponto dele é mais forte do que parece. Não se trata de considerar certos saberes inferiores. Trata-se de produzi-los como inexistentes, de modo que nem se apresentem como candidatos. O que está do outro lado da linha não é conhecimento ruim. Não é conhecimento.
E a proposta dele, a ecologia dos saberes, é reconhecer que existe conhecimento válido produzido fora dos lugares que emitem certificado.
Resumi esse artigo em 2024. Escrevi que a abordagem é inclusiva, democrática e necessária.
E em abril de 2026 a minha avó morreu.
Dias depois, escrevi sobre o que mais doía, que era o peso do quase. Listei o que eu havia planejado e não fiz: levá-la a lugares onde os pés cansados dela nunca pisaram, pagar um plano de saúde, arranjar alguém para limpar a casa.
E escrevi mais uma coisa, a última da lista.
Que eu queria ter colhido o DNA afetivo dela. Feito uma daquelas entrevistas profundas, mapeado cada detalhe do passado, eternizado a narrativa.
Não fiz.
E aí está a ecologia dos saberes deixando de ser artigo.
Aquela mulher sabia coisas.
Sabia a história de uma família inteira, com nomes que ninguém mais conhece. Sabia como se vivia num bairro específico de Vitória em décadas que eu não alcancei. Sabia receita, sabia remédio, sabia quem era parente de quem, sabia por que certas pessoas não se falavam.
E sabia a rota. Escolheu ser velada na Assembleia de Deus em Gurigica, a mesma igreja de onde a minha bisavó saiu em cortejo para o cemitério de Maruípe, e quis sair dali pelo mesmo caminho.
Ela conhecia o percurso de duas gerações e o repetiu de propósito.
Isso é conhecimento. Tem estrutura, tem transmissão, tem uso e tem consequência prática.
E nada daquilo está escrito em lugar nenhum.
Eu passei vinte anos construindo um arquivo pessoal. Duzentos e tantos textos, categorias, datas, revisão. Sou servidor de instituição de ensino, faço doutorado, coordeno um núcleo de estudos afro-brasileiros e indígenas, cujo trabalho é justamente valorizar saberes que a academia deixou de fora.
E não gravei uma hora de conversa com a minha própria avó.
A linha abissal não passa apenas entre a universidade e a comunidade. Ela passou dentro da minha casa, e eu estava do lado que escreve.
Escrevi, quando ela morreu, que o arquivista não arquivou a única pessoa que não pode ser recuperada de outro jeito.
Hoje eu chamaria de outro nome.
O que aconteceu foi que eu tratei os meus textos como conhecimento e a fala dela como convivência.
E é exatamente essa distinção, feita sem que ninguém a decida em voz alta, que produz a inexistência.


